Por Estacio Valoi e Luís Nhachote (CJI — Parte 3) O que está a acontecer em Vilankulo não é um caso isolado. É a expressão local
Por Estacio Valoi e Luís Nhachote (CJI — Parte 3)
O que está a acontecer em Vilankulo não é um caso isolado. É a expressão local de um modelo económico mais amplo — repetido ao longo de décadas em diferentes regiões de Moçambique — assente na concessão de recursos naturais a investidores externos, com promessa de desenvolvimento rápido e transformação estrutural do território que termina sem beneficio, e quem detém o controle são as multinacionais com os sempre 75%! Casa entregue, vendida a preço de banana em beneficio de poucos!

Foto: Estacio Valoi/Vilankulo
Entre nepotismo, alegada corrupção, uma mineradora apadrinhada pelo governo do dia, sem licença ambiental, pré-requisito para começar de acordo com a legislação moçambicana, e uma AIA é necessária para garantir essa licença, violação dos direitos comunitários, trabalhadores, sem consultas comunitárias ou quando existem, sem participação publica, Vilankulo Inhambane continuava a avançar numa exploração frenética faz três anos, com aval final o lançamento da cidade petroquímica em 2025 pelo atual presidente moçambicano Daniel Chapo. “Haiyu…. está tudo debaixo da mesma corporação”.
A empresa-mãe poderia ser a Great Wall Mining Development Co (AGWMDC), uma empresa mineira chinesa que extrai areias pesadas (ilmenita, rutilo e zircão). https://www.cipmoz.org/wp-content/uploads/2024/04/Extractivism-which-destroys.pdf
Areias pesadas de Moçambique, ricas em minerais densos como ilmenite, rútilo e zircão, são exploradas para extrair titânio e zircónio, materiais essenciais em indústrias tecnológicas, aeronáutica, pigmentos, tintas e cerâmicas. Também são cruciais na construção civil para concreto de alta resistência, para fabricação de tintas, plásticos, papéis, e componentes cerâmicos; e Metalurgia: Produção de metais de alta resistência, como titânio: Essencial para concretos estruturais, lajes, pavimentos, drenagem e fabricação de tijolos refratário, são principalmente exportadas para grandes mercados consumidores, Ásia (principalmente China), Europa e Estados Unidos segundo dados de monitoria da indústria extrativa, atualmente concentrada em zonas como Nampula, na Zambézia, Chibuto (Gaza), envolve empresas chinesas, sendo transportado frequentemente através do Porto de Maputo.
Veja o video:
A rápida expansão do grupo Haiyu em Moçambique
De 2019 a 2025: Em menos de seis anos, o grupo Haiyu, maioritariamente de capitais que se creem chineses, estabeleceu uma rede de empresas mineiras em Moçambique, distribuídas entre as províncias de Nampula e Inhambane. Documentos comerciais obtidos e analisados ao longo desta investigação revelam um padrão consistente: múltiplas subsidiárias, estruturas societárias quase idênticas e um controle centralizado a partir de entidades estrangeiras. A análise do CJI baseia-se em 17 certidões comerciais, alterações estatutárias e registos administrativos, permitindo reconstruir o percurso do grupo desde a sua entrada no país, em 2019, até à recente reorganização em 2025.
A expansão geográfica das operações do grupo Haiyu em Moçambique coincide com áreas onde o atual Presidente, Daniel Chapo, exerceu anteriormente funções administrativas. Chapo foi administrador distrital em Nacala-a-Velha (2009) e Palma (2015), antes de ser nomeado Governador da Província de Inhambane em 2016, cargo que ocupou até à sua candidatura presidencial em 2024. Algumas das zonas onde o grupo estabeleceu operações mineiras situam-se nessas mesmas regiões ou em áreas sob sua anterior jurisdição administrativa. Não há, até ao momento, uma evidência pública que estabeleça uma ligação direta entre o governante e as operações do grupo. No entanto, a sobreposição geográfica levanta questões relevantes sobre o contexto institucional em que essas concessões foram atribuídas.
Uma expansão rápida e estruturada
Os primeiros registos do grupo Haiyu em Moçambique surgem em 2019, com a constituição das suas primeiras sociedades ligadas à atividade mineira. Desde então, o número de empresas associadas ao grupo aumentou de forma progressiva, acompanhando uma estratégia de expansão territorial.
As sociedades identificadas concentram-se principalmente em duas regiões: em Nampula, com várias entidades sob designações semelhantes e Vilankulo (Inhambane), onde o grupo também estabeleceu presença.
Entre as empresas analisadas estão:
Haiyu (Mozambique) Mining Nampula I, II, III
Haiyu (Mozambique) Mining Nampula X, SU, Lda
Haiyu (MZ) Mining – Vilankulo
Haiyu Vilankulo Mining Co., Lda
A repetição de nomes e estruturas sugere uma lógica de replicação operacional, frequentemente observada em grupos com atividades extrativas em múltiplas concessões.

A holding
Um modelo que se repete
Os documentos analisados milimetricamente pelo CJI indicam que as diferentes empresas seguem um modelo societário praticamente idêntico. Em geral, a estrutura de capital é composta por: i)Uma entidade maioritária com cerca de 90% de participação, ligada à empresa chinesa Hainan Haiyu Mining Co., Ltd e ii)Uma participação minoritária de cerca de 10%, associada a entidades registadas em Hong Kong.
Este modelo repete-se em várias sociedades, sugerindo uma organização centralizada, apesar da multiplicidade de empresas formalmente distintas. Segundo os registos, o controlo efetivo das operações permanece concentrado na entidade chinesa.
Os mesmos nomes, várias empresas
Outro padrão identificado é a repetição de administradores nas diferentes sociedades. Entre os nomes que surgem com frequência estão: Hefeng Dong, Juyi Li, Li Zhou e Zhou Li
A presença recorrente dos mesmos administradores em várias empresas pode indicar coordenação estratégica e centralização da gestão.
Mudanças recentes e reorganização
A partir de 2024, os documentos apontam para alterações relevantes na estrutura do grupo em Moçambique. Entre as mudanças identificadas estão: Aumentos de capital social, Alterações estatutárias e a Criação de novas entidades, incluindo uma sociedade unipessoal. Em 2025, esta evolução culmina numa aparente reorganização do grupo, com a introdução de novas configurações jurídicas.
Segundo a análise documental, estas alterações podem estar associadas a reestruturação interna, adaptação a novas concessões e segmentação de ativos.
Expansão geográfica e recursos
A presença simultânea em Nampula e Vilankulo sugere uma estratégia orientada para zonas costeiras com potencial mineral. Embora os documentos comerciais não detalham diretamente as concessões associadas a cada empresa, a distribuição territorial e a criação sequencial de sociedades indicam uma possível ligação à exploração de recursos específicos.
Padrões que levantam questões
A análise dos registos não revela, por si só, qualquer ilegalidade documental. No entanto, vários elementos justificam um escrutínio mais aprofundado: Criação sequencial de múltiplas empresas com estruturas idênticas; Concentração de controlo em entidades estrangeiras; repetição sistemática de administradores e a utilização de entidades intermediárias registadas em Hong Kong
Estes padrões são consistentes com estruturas empresariais complexas utilizadas em operações internacionais, particularmente em setores de elevado valor económico.
No centro de tudo isto está uma questão raramente colocada de forma direta: quem decide o destino destes territórios? Projetos desta escala não são definidos ao nível local. Resultam de negociações entre Estado, investidores e estruturas técnicas, muitas vezes distantes das comunidades que irão viver com as consequências. Quando a informação chega ao terreno, o essencial já está decidido. O espaço para participação torna-se limitado — e, por vezes, meramente formal.
Vilankulo torna-se, assim, um ponto de convergência de várias tensões: entre curto e longo prazo, entre crescimento económico e sustentabilidade, entre interesse nacional e impacto local, entre promessa e realidade.
A costa de Inhambane encontra-se hoje numa encruzilhada. Pode consolidar um modelo baseado na conservação e no turismo, integrar-se plenamente numa economia extrativa global ou tentar conciliar ambos — uma tarefa que, na prática, tem demonstrado ser profundamente difícil quando os interesses entram em choque direto.
A mineração de areias pesadas encaixa perfeitamente nesse padrão. Concessões de longa duração, forte presença de capital estrangeiro, exportação de matéria-prima com reduzida transformação local e benefícios concentrados fora das comunidades diretamente afetadas. O discurso que acompanha estes projetos é conhecido: criação de emprego, dinamização da economia local, aumento de receitas para o Estado. Mas a questão central não é o que é prometido. É o que permanece depois.
No terreno, os primeiros efeitos são visíveis. A mineração aparentemente gera emprego prometido, sobretudo numa fase inicial, absorvendo mão-de-obra local num contexto de escassez de oportunidades. Para muitos jovens, trata-se da única alternativa imediata de rendimento. Mas esse efeito tem prazo. À medida que o projeto avança, a mecanização tende a aumentar, a necessidade de trabalho manual diminui e os postos mais qualificados são frequentemente ocupados por técnicos externos. O ciclo repete-se: emprego rápido, seguido de redução progressiva e concentração de valor fora da comunidade.
Ao mesmo tempo, começam a desenhar-se infraestruturas que ultrapassam a escala da extração local. Planos de portos, estradas e corredores logísticos surgem como extensões naturais do projeto mineiro. Mesmo quando permanecem no plano conceptual, revelam a verdadeira dimensão da intervenção: não se trata apenas de retirar areia, mas de integrar a costa numa cadeia global de exportação de recursos. A paisagem deixa de ser definida pela sua vocação ecológica ou turística e passa a ser organizada em função da eficiência logística.
Este processo levanta uma questão estrutural: que parte da riqueza gerada permanece no país — e, sobretudo, nas comunidades diretamente afetadas? A experiência acumulada em diferentes contextos sugere um padrão consistente. A maior parte do valor é capturada fora — na transformação industrial, nas cadeias de distribuição e nos mercados internacionais. Localmente, permanecem empregos limitados, receitas fiscais frequentemente reduzidas por incentivos e isenções, e uma pressão ambiental e social concentrada.
O problema não é apenas económico. É de distribuição. É de modelo!
Antes da expansão de projetos extrativos de grande escala, outras possibilidades foram discutidas para a costa de Inhambane. Modelos baseados na conservação ambiental, no turismo sustentável, na chamada economia azul a qual o governo ainda este mês de maio de 2026 apareceu a defender, e até com mecanismos internacionais de financiamento ligados à proteção de ecossistemas. Essas alternativas partiam de uma lógica diferente: valorizar o território ao longo do tempo, mantendo o capital natural como ativo estratégico. A opção pela via extrativa representa uma mudança profunda — substitui um modelo de rendimento gradual por um modelo de exploração intensiva e acelerada.
Para as comunidades locais, essa transição não é teórica. É vivida no quotidiano. Por um lado, há expectativa: emprego, circulação de dinheiro, promessa de desenvolvimento. Por outro, cresce a incerteza: perda de acesso à terra, transformação dos modos de vida, degradação ambiental e ausência de garantias claras sobre o futuro. A velocidade da mudança é frequentemente superior à capacidade de adaptação social e institucional.
A semelhança deste como acontece nos outros projetos envolvendo multinacionais, consultores são pagos para a aprovar e as comunidades ficam a ver navios
De nossas fontes locais e documentos “O Ministério do Ambiente rejeitou esse projeto. Tem os documentos que foram submetidos pela mineradora: o Plano de Gestão Ambiental deles, o Relatório do Estudo de Impacto Ambiental e tudo isso foi rejeitado pelo Ministério do Ambiente. E para rejeitarem isso, eles usaram muito este relatório que é a análise de potencial impacto ambiental. Então isso, em 2019/2020, foi reprovado.”
Os atropelos foram continuando e uma das organizações locais fazendo alusão ao relatório que chumbou o projeto da mineradora: “Há muita informação técnica nesse relatório do porquê que isso também não pode ser feito. Quando o relatório foi submetido, todo mundo identificou foi empregue dentro do Ministério, não foi publicado em nenhuma parte, foi usado para avaliação interna da equipe do Ministério do Ambiente. O relatório identifica que nós também fizemos tudo, estudos aqui dos recifes, porque o que se está a tentar mostrar é a importância desse ecossistema.”

Fhoto: Estacio Valoi/Zona ‘Lagon’ where the company intends to construct the port
A reclamações sobre a construção do porto á exploração de áreas pesadas
Segundo Gabureza em Vilanculos houve reclamações que até envolveram ainda o administrador para resolução, mas, “logo depois do lançamento daquele projeto (cidade petroquímica), ali com o Presidente da República, só vimos os chineses a admitir o pessoal, e neste momento, está semana mesmo (15 de fevereiro 2026) eles estão a admitir em massa, muitas tentativas de consulta por parte da empresa a comunidade, empresariado, operadores turísticos, organizações da sociedade civil ambientais assim como outros consultados sobre onde podem construir e a resposta foi simples. Não queremos a construção do porto aqui.”
E acrescenta que: “Aqui em termos da comunidade, os chefes de círculo é que vão e têm encontros com chefes do posto administrativo, distritos, e estão a receber instruções. E há uma zona aí que eles chamam de planície, e o que me faz desconfiar é que seja aquela zona dos mangais que chamam de planície de estuário, desconfio que seja o tal lugar que projetam para o Porto. E as comunidades têm recebido informações de que ali ninguém faz nada ou plantar porque vai-se fazer ali uma área residencial. Um plano residencial no mangal! Não faz sentido! Eu acho que seja o plano para manter as pessoas afastadas. E depois dizem “Porque aqui tem uma antiga estrada, mais próximo da costa, que liga Massinga e Vilanculo,” onde antes da guerra dos 16 anos era suposto ser a estrada principal, e quando começou a guerra foi abandonada, mas agora estão a falar de reativar e reabrir essa estrada para haver um acesso direto daqui para o aeroporto, para estes empresários. Também houve encontros sobre criar nesta zona das minas, do mangal um aeródromo, são essas conversas que estão a chegar aos líderes locais vêm dos encontros a nível distrital. “Disse Gabureza
Malagueta Jesus reconfirma que a empresa sem licença Ambiental vêm desenvolvendo suas atividades a três anos. “Tem equipamento ilustre, viaturas mesmo antes de terem sido concedidos a exploração, eles já tiravam o minério duma forma clandestina, e a nossa costa está mal guarnecida. Você fica com 60% ou 70% porque você é quem vai operar, eu fico com 40% no gabinete. No fim do dia não se sabe qual é a quantidade que o teu sócio está a tirar. Quer dizer, ele vai tirar aquilo que lhe convém. Aquelas dunas são importantes para o ecossistema.”
Umas das organizações locais com quem conversamos salienta que existem alternativas para elem dos supostos dólares do Haiyu que vão deixar Moçambique cheio de crateras em quilómetros de dimensão
“A impressão que nos dá é que a mineradora tem encontros ao mais alto nível governamental, mandam instruções aos lideres dos distritos, líderes e seus círculos, vê-se que não têm noção da dimensão disto. Só dizem: “Epá, vai haver uma estrada, vai haver isto.” Estão a empregar pessoas, mas é trabalho modo escravatura: trabalha sem parar, carrega pedras, carrega as máquinas, desenterram sacos, e se não quiser trabalhar há um outro. E é para jovens. E neste momento os jovens estão a lutar entre eles, em desespero. Como não há emprego, aquelas migalhas são muito. Então, todo mundo está a ver isso como uma salvação, mas ninguém sabe que há uma alternativa na mesa. Primeiro houve a alternativa do Debt-for-Nature Swap, que são esquemas financeiros, em que um país troca sua dívida externa por um investimento grande para proteger ecossistemas críticos de importância global. Então, este troço da costa de Inhambane, está reconhecido internacionalmente como um pedaço de paisagem marinha e costeira única.
E acrescenta que há dois anos atrás ou ano e meio houve uma proposta do Debt-for-Nature Swap – aquele que está a trabalhar no Equador a proteger as Galápagos – que apresentou ao governo: “Vamos perdoar a dívida externa em cerca de 700 milhões de dólares, e vocês ainda recebem cento e tal milhões de dólares em Endowment Fund para implementar nesta área, programas.” Quer dizer, investir no próprio governo, investir nas organizações que trabalham com as próprias comunidades. Enfatizou a fonte
“O governo’ não quer alternativas!”
“Sim, porque aquele esquema não implica dinheiro nos bolsos, mas implica dinheiro no Estado e a Endowment Fund, continuaria a financiar desde que continuasse a proteger o desenvolvimento de negócios comunitário mas com a preservação dos recursos. O medo que isto dá, faz de certo modo, lembra um pouco Cabo Delgado, temos muitos jovens sem grandes alternativas, desesperados! Agora no início é fácil contratar as pessoas locais para abrir estradas, pequenas obras, carregar sacos! Mas quando começarem as oportunidades, mesmo de fornecer serviços, de contratar técnicos capacitados, quase todo mundo há de vir da China. E, se forem nacionais, talvez venham de Maputo, não é. E essas pessoas provavelmente terão que ser desalojadas de onde estão. Sim, estão a favor disto porque não temos outra maneira de fazer a vida, isto para do desastre ambiental, porque aqui temos sistemas de recife únicos, rotas de espécies únicas, as pessoas vivem da pesca.
“O que se passa agora?…Aqui ninguém vive da SASOL.” https://moz24h.co.mz/vilanculos-em-polvorosa-diga-nao-ensaio-sismico-proteger-bazaruto-da-cnooc/ Em Vilankulo retalha-se quase tudo, querem tudo, do subsolo até o que esta no fundo do mar!
Inhambane em risco de desaparecer “Não queremos pesquisas sísmicas…”
Veja o vídeo: Gabriel Cossa membro da comunidade/Empresario/Vilanculo
Mais do que uma escolha económica, trata-se de uma escolha sobre o tipo de desenvolvimento que o país pretende seguir. Um caminho que privilegia a extração intensiva pode gerar ganhos rápidos, mas coloca em risco os próprios sistemas naturais que sustentam outras formas de riqueza. Um caminho baseado na conservação exige mais tempo, mais coordenação e mais paciência — mas tende a preservar o valor ao longo das gerações.
O caso das areias pesadas em Inhambane expõe essa tensão de forma particularmente clara. No fim, a questão não é apenas quem ganha hoje. É quem continuará a ganhar amanhã — e a que custo? Porque, quando a areia for retirada, quando os ecossistemas estiverem alterados e quando o ciclo extrativo terminar, restará uma pergunta inevitável: O que ficou — e para quem?


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