{"id":2008,"date":"2018-05-18T08:52:09","date_gmt":"2018-05-18T08:52:09","guid":{"rendered":"https:\/\/cjimoz.org\/news\/?p=2008"},"modified":"2018-09-05T11:48:00","modified_gmt":"2018-09-05T11:48:00","slug":"mocambique-aos-cuidados-do-pastor-roy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/mocambique-aos-cuidados-do-pastor-roy\/","title":{"rendered":"Mozambique - In the care of Pastor Roy"},"content":{"rendered":"<h2><strong>How an African state and international institutions closed their eyes to thirty years of sexual abuse in a Christian Mission.<\/strong><\/h2>\n<p><em>Por Est\u00e1cio Valoi\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Ningu\u00e9m se lembra exactamente de quando a Rosa faleceu, mas foi algures entre 2005 e 2007, na\u00a0 estrada para o hospital de Chimoio. O que se sabe \u00e9 que a Rosa sangrou at\u00e9 \u00e0 morte e que estava gr\u00e1vida. Tamb\u00e9m se sabe que ela era uma das meninas \u2018favoritas\u2019 do director do orfanato da Maforga, o Pastor Roy Perkins, e que ela se tinha recusado a revelar quem o pai dos g\u00e9meos era. As raparigas dizem que j\u00e1 houve quatro desses casos de morte na Maforga, ao cuidado do Pastor Roy.<\/strong><\/p>\n<p>De origem Australiana, mas nascido na Z\u00e2mbia e crescido no Zimb\u00e1bue, o Pastor Roy tem vindo a cuidar das meninas no orfanato da Miss\u00e3o Crist\u00e3 da Maforga de uma forma semelhante \u00e0 que esses outros \u2018profetas\u2019 que, de acordo com os moradores locais, \u201cdormem com todas as f\u00eameas\u201d na desesperadamente pobre Prov\u00edncia de Manica, no centro de Mo\u00e7ambique a cerca de mil quil\u00f3metros de Maputo. Aqui, homens influentes exploram raparigas vulner\u00e1veis que se disp\u00f5em a muito em troca de comida ou de um telefone celular. \u201cO Roy comporta-se exactamente assim,\u201d diz a mission\u00e1ria Stephanie Williams, que deixou a Miss\u00e3o da Maforga em 2017. \u201cEle nasceu na Z\u00e2mbia. \u00c9 Africano.\u201d<\/p>\n<p>Mas \u00e9 claro, ele n\u00e3o o \u00e9. Ou talvez seja um h\u00edbrido. Por causa da sua pele branca, passaporte Australiano e experi\u00eancia nos canais mission\u00e1rios internacionais, -um sector que geralmente carece de supervis\u00e3o-, o \u2018Pastor Roy\u2019 tem conseguido chefiar, nos \u00faltimos 30 anos, doa\u00e7\u00f5es, bens de ajuda internacional e colegas mission\u00e1rios na sua miss\u00e3o. \u00c9 assim, tanto como \u00e9 a hist\u00f3ria do Pastor Roy e a sua fiel e bizarra esposa Trish Perkins, a hist\u00f3ria dos \u2018verdadeiros\u2019 mission\u00e1rios que passaram anos na miss\u00e3o da Maforga antes que se apercebessem da realidade.<\/p>\n<p>Talvez mais que isso, esta \u00e9 a hist\u00f3ria de como n\u00e3o se conseguiram livrar de Roy Perkins: como as autoridades governamentais locais o protegeram e o protegem, mesmo depois de dois casos de abuso sexual serem abertos no tribunal. \u201cO Roy sabe como os manusear. Uma vez ele veio aos escrit\u00f3rios municipais com trinta meninas afirmando que as deixaria ali se n\u00e3o obtivesse uma autoriza\u00e7\u00e3o de que precisava,\u201d contou o mission\u00e1rio Daniel Bell. O que as autoridades de Manica n\u00e3o querem \u00e9 terem que ser elas a cuidar das crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s e vulner\u00e1veis da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Favoritas<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000 o mission\u00e1rio da Maforga Aaron Beecher j\u00e1 havia notado que o Roy sempre tinha favoritas. \u201cElas recebiam presentes e nunca faziam nada de errado. Mas ningu\u00e9m tinha tempo para se preocupar com esse assunto. A zona estava ainda a recuperar dos efeitos da guerra\u201d (entre o governo liderado pelo partido da Frelimo e os rebeldes, EV\/EG). \u201cE o Roy tinha desenvolvido aquela imagem de l\u00edder incontest\u00e1vel, o Homem eleito por Deus.\u201d<\/p>\n<p>Aaron Beecher e a sua esposa estavam no Reino Unido quando a Rosa faleceu e deixou-se de falar dela quando regressaram. Mas, em Fevereiro de 2008, o Roy inesperadamente anunciou que tinha uma \u2018confiss\u00e3o\u2019 a fazer. \u201cA Escritura diz que um homem se devia deliciar nos peitos da noiva da sua juventude (mas) eu vim para confessar a voc\u00eas que tenho estado a deliciar-me nalguns peitos que n\u00e3o s\u00e3o da minha esposa,\u201d o Pastor confessou ao fim da tarde num encontro com os anci\u00e3os. Ele explicou que tinha vindo a acariciar os peitos da Elina* (de 15 anos) e que o queria \u201cconfessar para que pudesse ser perdoado e coberto pelo sangue do Cordeiro.\u201d<\/p>\n<p>Kees e Sarah Tanis, mission\u00e1rios Holandeses, encarregados do vizinho centro dos rapazes, e o anci\u00e3o nacional Manuel Mastarde julgaram que aconselhamento seria suficiente para lidar com a situa\u00e7\u00e3o, mas Aaron Beecher e mais alguns discordaram. Sabiam que outra rapariga havia surpreendido o \u2018Pap\u00e1 Roy\u2019 a \u2018tocar\u2019 a Elina e suspeitavam que a confiss\u00e3o possa ter sido feita por forma a antecipar-se \u00e0 den\u00fancia. \u201cEu disse ao Roy mais tarde que eu imaginava que isto fosse apenas a ponta do iceberg,\u201d diz Beecer. \u201cE ele baixou os olhos.\u201d<\/p>\n<p>Numa investiga\u00e7\u00e3o subsequente, a Elina relata que ele a \u2018tocou\u2019 pelo menos \u201ccinco vezes.\u201d Tamb\u00e9m afirma que \u201ch\u00e1 v\u00e1rias raparigas a terem rela\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas com o \u2018Pap\u00e1\u2019\u201d e que ele a tinha dito para \u201cn\u00e3o andar a falar.\u201d Outra rapariga diz a Beecher que depois de ir de \u2018f\u00e9rias\u2019 com o Roy e Trish Perkins \u201cque n\u00e3o o faria de novo.\u201d Ainda outra, a Noemi*, diz que o Roy geralmente \u201centra no quarto das meninas sem bater \u00e0 porta.\u201d Diz tamb\u00e9m que o \u2018Pap\u00e1\u2019 tem \u2018uma rela\u00e7\u00e3o com a Albertina (de 20 anos de idade).\u201d Mais uma vez, o Roy confessa, desta vez pelos seus \u201csentimentos de tenta\u00e7\u00e3o pela Albertina.\u201d Adiciona ainda que \u201cse desculpou directamente \u00e0s meninas e que rezou\u201d com elas. Mas isto n\u00e3o traz al\u00edvio para os outros. Que abusador chama as suas v\u00edtimas para falar do abuso em detalhe? \u201cImagina que tens treze anos e tens que ouvir tudo isso,\u201d diz uma antiga Mission\u00e1ria de Maforga, Gwen McCarthy*, que, assim como o seu marido Michael*, e tal como os Beecher, intensificavam as suas suspeitas sobre o Roy.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Tanis e os anci\u00e3os nacionais recusam-se a envolver a pol\u00edcia. O que vai ser do centro dos rapazes, do estudo b\u00edblico, do aconselhamento aos prisioneiros? \u201cFoi terr\u00edvel\u201d recorda Michael. \u201cN\u00f3s fomos acusados de querer assumir a miss\u00e3o, at\u00e9 mesmo de a querer destruir.\u201d Gwen McCarthy leva ent\u00e3o a Elina, a Noemi e mais algumas meninas ao posto policial e enquanto aguardam no corredor, ouve o Procurador a perguntar \u00e0 Elina: \u201cfoi coisas de adulto?\u201d; a resposta dela \u201csim\u201d, enquanto chorava em pranto.<\/p>\n<p>Depois de regressarem dos depoimentos, a Elina \u00e9 expulsa do orfanato \u201ccomo um c\u00e3o, sem sequer uma mala,\u201d diz ela. A Noemi \u00e9 chamada de ingrata: a alcunha dela no centro passa a ser \u2018mafiosa\u2019 e ela \u00e9 rejeitada pela maioria. \u201cReceiam passar fome nas ruas sem ele,\u201d explica Gwen McCarthy. \u201cClaro que ele lhes est\u00e1 sempre a dizer isso, \u2018Se eu for expulso, quem vos vai dar de comer?\u2019\u201d<\/p>\n<p>Quando o Procurador Distrital, Le\u00f3nides Mapasse, encerra o caso por \u2018falta de provas\u2019 (\u201co que foi estranho,\u201d diz Aaron Beecher, \u201cporque ele havia nos dito antes que estava certo de que tinha um verdadeiro caso\u201d), o grupo em causa vira-se para o governo Distrital. Mas num encontro a 6 de Novembro de 2009, ficam mais uma vez estupefactos quando ouvem a Administradora Distrital de Gondola, Catarina Dinis, decretar que o Roy e Trish, como \u2018pais\u2019 da miss\u00e3o, devem \u2018perdoar os seus filhos\u2019 -referindo-se aos mission\u00e1rios em causa- \u2018por se portarem mal.\u2019 A Administradora Dinis ecoa as constantes alega\u00e7\u00f5es de Roy de que nunca houve sexo \u2018em si\u2019 com a Elina e portanto \u201co caso n\u00e3o era t\u00e3o s\u00e9rio.\u201d (At\u00e9 hoje, alguns mission\u00e1rios julgam que o Roy apenas \u2018tocou\u2019 e que nunca houve rela\u00e7\u00f5es sexuais. Mas v\u00e1rias raparigas afirmam que aconteceu, que houve gravidezes e que \u201ctodos os abortos aconteceram debaixo do nosso telhado quando o Roy l\u00e1 estava.\u201d)<\/p>\n<p>Depois do referido encontro, o grupo em causa decide deixar a miss\u00e3o. \u201cN\u00f3s sab\u00edamos que j\u00e1 n\u00e3o pod\u00edamos l\u00e1 ficar ou a receber fundos dos nossos doadores. N\u00e3o nos pod\u00edamos submeter mais \u00e0 autoridade do Roy.\u201d<\/p>\n<p><strong>O poder do Roy<\/strong><\/p>\n<p>Novos mission\u00e1rios que chegaram em 2013, alheios ao que havia acontecido anteriormente, ouvem rumores sobre o \u201cRoy andar a dormir com raparigas,\u201d diz Daniel Bell. \u201cMas eram apenas rumores. E eu estava preocupado em obter \u00e1gua. A limpar lixo por todos os lados. Crian\u00e7as pequenas a cortarem-se em latas e vidro partido.\u201d Mas Bell come\u00e7a rapidamente a desconfiar da educa\u00e7\u00e3o que as meninas recebem do Roy e Trish Perkins. \u201cEram muitas vezes rudes e insolentes, mas calavam-se rapidamente ao m\u00ednimo gesto do Roy. A Trish disse-me uma vez que ela tinha orgulho desse \u2018poder\u2019 do Roy.\u201d<\/p>\n<p>Bell tamb\u00e9m come\u00e7a gradualmente a ficar preocupado com o estado delapidado do centro das raparigas, gerido directamente pelo Roy e Trish. \u201cEles mantinham o centro com aspecto pat\u00e9tico, presumidamente para p\u00f4r os visitantes em l\u00e1grimas e fazer com que dessem mais. Mas quando vinham novas doa\u00e7\u00f5es ou constru\u00e7\u00f5es, acabavam por desaparecer. E enquanto as meninas eram mantidas em condi\u00e7\u00f5es desprez\u00edveis, o Roy e a Trish tinham f\u00e9rias mais que suficientes.\u201d<\/p>\n<p>Em 2014, Bell visita Aaron Beecher, que agora trabalhava num col\u00e9gio t\u00e9cnico nas proximidades. Tem que ganhar coragem antes de conseguir faz\u00ea-lo. \u201cOs Perkins -principalmente a Trish- proibiram-nos de falar com qualquer membro do grupo do Beecher. Tinham dem\u00f3nios.\u201d Mas Bell precisava de alguns conselhos para o sistema de \u00e1gua que estava a construir. \u201cBeecher pergunta-me: o qu\u00ea, outro? Ele disse que j\u00e1 havia constru\u00eddo um e perguntou-me se os tanques dele j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o estavam mesmo. N\u00e3o estavam.\u201d<\/p>\n<p>Quando em Janeiro de 2015, Caity, de quinze anos, morre no hospital de Chimoio, as amigas est\u00e3o convencidas de que foi resultado de um aborto mal feito. A Trish Perkins parece partilhar desta suspeita, j\u00e1 que -de acordo Mavis Wright, uma mission\u00e1ria agora reformada mas que cuidava tamb\u00e9m das meninas e que foi mais tarde informada do tr\u00e1gico evento- d\u00e1 a bizarra instru\u00e7\u00e3o ao hospital para fazerem um \u2018teste de virgindade\u2019 assim que Caity chega ao hospital, sangrando e quase sem vida.<\/p>\n<p>Mas os mission\u00e1rios que levaram a Caity ao hospital tr\u00eas dias antes do seu falecimento, acreditam que foi febre tif\u00f3ide. \u201cEla estava com diarreia e febre e vomitava,\u201d diz Louise Bouwmeester*, cujo marido Henk* levou Caity nessa manh\u00e3 de segunda-feira, adicionando que mesmo assim muita da culpa podia ser atribu\u00edda ao Roy e Trish. \u201c\u00c9 poss\u00edvel que a febre tif\u00f3ide se tenha espalhado no centro porque havia um problema de higiene no lado das meninas quando a Mavis n\u00e3o estava.\u201d \u201cA Caity estava com febre h\u00e1 seis semanas,\u201d diz Bell, irritado. \u201cTudo o que o Roy e a Trish tinham feito foi mand\u00e1-la ao hospital, com apenas uma menina a acompanh\u00e1-la.\u201d A Trish n\u00e3o se mostrava preocupada, aparentemente, desde que n\u00e3o houvesse sangramento.<\/p>\n<p>Naquele mesmo ano, o novo grupo de mission\u00e1rios discutem entre eles que o &#8220;Roy est\u00e1 novamente a fazer o mesmo&#8221;. Desta vez, Catarina, de 21 anos, que \u00e9 enviada \u00e0 miss\u00e3o pelo Director Distrital da Ac\u00e7\u00e3o Social, Ant\u00f3nio Vigove, &#8220;para continuar com os seus estudos&#8221;, \u00e9 o objecto das afei\u00e7\u00f5es do papa Roy; como resultado a sua irm\u00e3 deixa a miss\u00e3o, transtornada. Os mission\u00e1rios transferem a Catarina do centro para outra casa na zona, mas Perkins, furioso ao descobrir que ela se foi embora, imediatamente se p\u00f5e \u00e0 estrada para a trazer de volta. Mesmo assim, os mission\u00e1rios levam Catarina \u00e0 pol\u00edcia para testemunhar, s\u00f3 para depois serem informados de que n\u00e3o h\u00e1 nenhum caso, uma vez que a &#8220;Catarina \u00e9 adulta&#8221;. Ao sa\u00edrem da esquadra da Policia, apercebem-se de que Roy Perkins tinha sido autorizado pelos seus amigos policiais a ficar atr\u00e1s da parede, para ouvir o testemunho de Catarina.<\/p>\n<p>Questionado o Director da Ac\u00e7\u00e3o Social, Ant\u00f3nio Vigove, porque enviara Catarina para a miss\u00e3o apesar de estar ciente das queixas contra Roy Perkins no Distrito desde 2009, Vigove nega ter tido conhecimento de tais queixas.<\/p>\n<p><strong>Um ex\u00e9rcito de meninas<\/strong><\/p>\n<p>Finalmente, em Outubro de 2016, \u00e9 feita uma descoberta. Uma carta n\u00e3o acabada onde a Trish fala da \u201ctenta\u00e7\u00e3o do Roy\u201d e de \u201cincidentes com meninas\u201d -algumas j\u00e1 nos anos 1980- \u00e9 descoberta por uma volunt\u00e1ria na secret\u00e1ria da Trish. Em novos encontros, cada vez mais irritados, Roy Perkins \u00e9 dito para sair n\u00e3o menos do que sete vezes. Cada vez a data combinada para sair \u00e9 ultrapassada e ele permanece. Os mission\u00e1rios procuram documentos do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o e da estrutura de supervis\u00e3o -algu\u00e9m deve ser respons\u00e1vel, algures- mas n\u00e3o conseguem encontrar. Escrevem ao Governador da Prov\u00edncia de Manica implorando que tome medidas, sem sucesso. Esfor\u00e7os para reabrir o caso no tribunal tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e3o certo por causa de, nas palavras do anci\u00e3o Manuel Mastarde, \u201cuma falta de credibilidade do departamento de justi\u00e7a em Chimoio.\u201d Stephanie Williams come\u00e7a a sentir que \u201ca \u00fanica forma de os tirar de l\u00e1 vai ser com uma arma apontada \u00e0 cabe\u00e7a dele.\u201d<\/p>\n<p>No dia 31 de Janeiro de 2017, quando em mais uma reuni\u00e3o se insiste que os Perkins devem sair agora, o casal acaba por abandonar a sala. Mas imediatamente a seguir chega um ex\u00e9rcito de cerca de quarenta meninas, l\u00e1 fora, a gritar, com paus e pedras. Quando o casal Bouwmeester e Daniel Bell correm para se abrigarem na casa dos Bouwmeesters, sob um chuveiro de proj\u00e9cteis, as meninas cercam a casa. \u201cEstavam a atirar peda\u00e7os de cimento pr\u00f3ximo da porta e a cantar \u2018Mata! Mata!\u2019 e \u2018Enda! Enda! (v\u00e3o embora)\u2019\u201d recorda-se Bell. \u201cTamb\u00e9m estavam a gritar na l\u00edngua local. No dia seguinte toc\u00e1mos a grava\u00e7\u00e3o que hav\u00edamos feito a uma pessoa da zona. Ele riu-se.\u201d O insulto que as raparigas adolescentes tinham inventado era \u201cA Louise n\u00e3o sabe cozinhar!\u201d<\/p>\n<p>Finalmente, quando \u00e9 avistado um carro da pol\u00edcia a aproximar-se, \u201cRoy disse algumas palavras,\u201d lembra-se Daniel Bell. \u201cElas pararam.\u201d<\/p>\n<p>Os mission\u00e1rios escrevem ent\u00e3o aos financiadores, organiza\u00e7\u00f5es que cuidam de crian\u00e7as, e at\u00e9 \u00e0 Embaixada Australiana (o Roy tem passaporte Australiano, n\u00e3o o podem tirar de Mo\u00e7ambique?) Mavis Wright contacta a Embaixada de Mo\u00e7ambique em Londres. Mas \u201ctodos eles remetem-nos de uns para os outros,\u201d suspira um. \u201cA Unicef acabou por dizer que as autoridades locais haviam sido informadas. N\u00f3s sab\u00edamos disso.\u201d<\/p>\n<p><strong>Conversando com jornalistas<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 em Abril de 2017 que Est\u00e1cio Valoi chega \u00e0 Maforga, mesmo depois do Domingo de P\u00e1scoa. A casa dos Bouwmeester foi novamente atacada, com janelas partidas e mob\u00edlias estragadas. O jornalista regressa, depois de entrevistar mission\u00e1rios, locais e algumas raparigas, mas \u00e9 solicitado para voltar para fazer a reportagem de mais um epis\u00f3dio. O Roy descobriu que algumas das raparigas andam a \u2018falar com jornalistas\u2019. A denunciante Noemi, a agitadora e \u2018mafiosa\u2019, que vive agora com familiares na vila, \u00e9 agarrada por um pol\u00edcia amigo de Roy em frente \u00e0 casa dela e quase raptada. Quando resolve esconder-se, membros da fam\u00edlia contam que a Trish vem \u00e0 sua casa e tenta que uma crian\u00e7a pequena lhe mostre onde Noemi se encontrava. Entretanto alguns mission\u00e1rios recolhem a Noemi para um novo local seguro.<\/p>\n<p>Entretanto, numa manh\u00e3 o \u2018Pap\u00e1\u2019 Roy entra no quarto de Fauzia quando esta se preparava para tomar banho. \u201cEu s\u00f3 tinha vestida uma capulana e quase nem tive tempo para p\u00f4r um casaco. Ele acusou-me de roubar uma ventoinha e um fog\u00e3o e eu disse, \u2018Quem, eu?\u201d O \u2018Pap\u00e1\u2019 sabia que tinha sido outra pessoa. Comecei a chorar, mas ele levou-me para o posto policial das Amatongas. Um pol\u00edcia interrogou-me e bateu-me durante dois dias,\u201d conta ela a Est\u00e1cio, acrescentando que um pol\u00edcia que conhece a fam\u00edlia dela ajudou a libert\u00e1-la e que o Roy ligou mais tarde \u00e0 fam\u00edlia dizendo, \u201c\u00c9 melhor que as pessoas que me odeiem fiquem na cadeia.\u201d<\/p>\n<p>Quem quer que acabe na cadeia, tudo parece indicar que n\u00e3o ser\u00e1 Roy Perkins. Mesmo depois de um novo processo ter sido aberto nos tribunais de Maputo, continua a \u2018correr\u2019; e mesmo depois do pr\u00f3prio Governador Provincial de Manica, Alberto Mondlane, ter prometido numa entrevista com Est\u00e1cio Valoi que \u201co caso seria definitivamente resolvido,\u201d nada avan\u00e7ou em 2018.<\/p>\n<p>Os habitantes de Maforga encontram-se entre uma rocha e uma superf\u00edcie rija. Muitos n\u00e3o gostam da ideia das meninas dormirem com homens poderosos por causa de comida ou de cr\u00e9dito nos seus telefones. \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o t\u00eam grandes sentimentos pelo mission\u00e1rio que explora as meninas, simulando ao mesmo tempo que finge trazer civiliza\u00e7\u00e3o e ilumina\u00e7\u00e3o. Um dia, quando Henk Bouwmeester visita as autoridades municipais para discutir problemas de energia el\u00e9ctrica, a mulher atr\u00e1s do balc\u00e3o responde de forma fria e diz: \u201cTu deves ser aquele velho da miss\u00e3o que anda a dormir com todas as raparigas.\u201d<\/p>\n<p>Mas quer queiram quer n\u00e3o, muitos aqui n\u00e3o conseguem alimentar as suas crian\u00e7as. Tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam raz\u00e3o para pensar que o seu pr\u00f3prio governo alguma vez os vai ajudar, mesmo existindo um departamento de Ac\u00e7\u00e3o Social, com pessoal e um or\u00e7amento. \u201cEu fiquei t\u00e3o chocada quando descobri que as pessoas estavam a esconder o segredo do que o Roy andava a fazer,\u201d recorda Stephanie Williams. \u201cEu perguntei-lhes porqu\u00ea. Eles disseram que tinham medo que todos partir\u00edamos se eles falassem.\u201d Mas alguns sentem que j\u00e1 chega. \u201cAinda temos esperan\u00e7a que pessoas brancas boas venham e nos ajudem,\u201d dizem. \u201cMas o Roy deve sair.\u201d<\/p>\n<p>Elina, a menina cujos peitos tanto \u2018deliciaram\u2019 Roy em 2008, agora com 23 anos, vive na Beira com o seu marido \u2018depois de passar algum tempo nas ruas quando foi expulsa do orfanato\u2019 fala sem pausa para respirar: \u201cPorque se eu for a falar a verdade&#8230; aquilo que eu fui feito&#8230; eles v\u00e3o atr\u00e1s de mim&#8230;\u201d, diz ela.<\/p>\n<p><strong>Os coment\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>Conseguir dos Perkins o seu lado da hist\u00f3ria tem sido dif\u00edcil. Quando Est\u00e1cio visitou o orfanato, a Trish diz-lhe que \u201cn\u00e3o tem autoriza\u00e7\u00e3o\u201d para falar e telefona para o Roy que, diz ela, \u201cest\u00e1 a vir com o Comandante da Pol\u00edcia de Gondola.\u201d Est\u00e1cio, conhecendo bem a forma como a pol\u00edcia Mo\u00e7ambicana costuma agir, confiscando e destruindo as suas grava\u00e7\u00f5es e anota\u00e7\u00f5es, retira-se antes que o duo chegue.<\/p>\n<p>Mais tarde, tentando obter coment\u00e1rios de Roy via email e SMS, Roy afirma que as acusa\u00e7\u00f5es contra ele n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras e que ir\u00e1 enviar documentos que assim o provam. Volta a contactar solicitando mais algum tempo, e depois pergunta se a jornalista Evelyn Groenink \u2018\u00e9 Crist\u00e3.\u2019 Depois de passar mais uma semana, n\u00e3o h\u00e1 documentos e n\u00e3o surgem respostas. Uma \u00faltima mensagem por SMS simplesmente exorta para que o artigo n\u00e3o seja publicado.<\/p>\n<p>As \u00faltimas informa\u00e7\u00f5es que recebemos da Miss\u00e3o referem \u2018homens b\u00eabedos\u2019 na miss\u00e3o a \u2018fazerem-se\u2019 \u00e0s meninas numa aut\u00eantica \u2018cultura de abuso\u2019.<\/p>\n<p>*Nomes alterados mediante solicita\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Esta Investiga\u00e7\u00e3o foi financiada por amigos com o apoio do Programa Para Fortalecimento da M\u00eddia em Mo\u00e7ambique (IREX)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u2018ORFANATOS\u2019<\/strong><\/p>\n<p>A ajuda a orfanatos em \u00c1frica \u00e9 geralmente repleta de problemas. Orfanatos falsos e abusivos foram expostos, entre outros, pelo parceiro de jornalismo investigativo da ZAM, o AIPC, no Uganda, Tanz\u00e2nia e Gana. (<em>links<\/em> e refer\u00eancias podem ser enviados mediante solicita\u00e7\u00e3o.) Em todos os casos investigados, descobriu-se que os bandidos se faziam passar por protectores, retendo doa\u00e7\u00f5es para si mesmos, enquanto que (assim que os visitantes n\u00e3o estavam a ver) as crian\u00e7as eram mantidas em condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis e muitas vezes at\u00e9 abusadas pelos pr\u00f3prios &#8216;protectores&#8217;. O fen\u00f3meno prospera com o sucesso de alegrar os cora\u00e7\u00f5es dos ocidentais que querem \u2018fazer o bem\u2019 em \u00c1frica e \u00e9 fortalecido pela geral neglig\u00eancia de crian\u00e7as vulner\u00e1veis por governos disfuncionais. No Gana, quando menores de idade foram libertadas de um bordel e colocadas sob os cuidados do Minist\u00e9rio da Ac\u00e7\u00e3o Social, em poucas semanas elas voltaram \u00e0s ruas, novamente fazendo trabalho de prost\u00edbulo. No bordel, pelo menos, tinham um tecto sobre suas cabe\u00e7as. A AIPC actua para responsabilizar os governos africanos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como um estado africano e institui\u00e7\u00f5es internacionais fecharam os olhos a trinta anos de abuso sexual numa Miss\u00e3o Crist\u00e3. Por Est\u00e1cio Valoi\u00a0 Ningu\u00e9m se lembra exactamente de quando a Rosa faleceu, mas foi algures entre 2005 e 2007, na\u00a0 estrada para o hospital de Chimoio. O que se sabe \u00e9 que a Rosa sangrou at\u00e9 [&hellip;]<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[266],"rttpg_featured_image_url":null,"rttpg_author":{"display_name":"Reda\u00e7\u00e3o CJIMOZ","author_link":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/author\/hcuambe\/"},"rttpg_comment":0,"rttpg_category":"<a href=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/category\/uncategorized\/\" rel=\"category tag\">Crime Organizado<\/a>","rttpg_excerpt":"Como um estado africano e institui\u00e7\u00f5es internacionais fecharam os olhos a trinta anos de abuso sexual numa Miss\u00e3o Crist\u00e3. Por Est\u00e1cio Valoi\u00a0 Ningu\u00e9m se lembra exactamente de quando a Rosa faleceu, mas foi algures entre 2005 e 2007, na\u00a0 estrada para o hospital de Chimoio. O que se sabe \u00e9 que a Rosa sangrou at\u00e9&hellip;","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2008"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2008"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2008\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2174,"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2008\/revisions\/2174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2008"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2008"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2008"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}