{"id":2526,"date":"2020-11-19T10:18:12","date_gmt":"2020-11-19T08:18:12","guid":{"rendered":"https:\/\/cjimoz.org\/news\/?p=2526"},"modified":"2020-11-20T15:13:54","modified_gmt":"2020-11-20T13:13:54","slug":"quadro-confuso-e-de-desconfianca-entre-as-fds","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/quadro-confuso-e-de-desconfianca-entre-as-fds\/","title":{"rendered":"Quadro confuso e de desconfian\u00e7a entre as FDS"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-2425\" src=\"https:\/\/cjimoz.org\/news\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/insurgentes-08-03-400x166.jpg\" alt=\"\" width=\"816\" height=\"340\" \/><\/p>\n<p><strong>Estacio Valoi<\/strong><\/p>\n<p>A narrativa oficial sobre as For\u00e7as de Defesa e Seguran\u00e7a (FDS) de Mo\u00e7ambique \u00e9 de militares e pol\u00edcias que com bravura, patriotismo e esp\u00edrito abnegado defendem a soberania nacional contra os ataques perpetrados pelos insurgentes isl\u00e2micos em Cabo Delgado.<\/p>\n<p>T\u00e3o recentemente como na \u00faltima semana de Outubro, o Comandante-Geral da Pol\u00edcia da Rep\u00fablica de Mo\u00e7ambique (PRM), Bernardino Rafael, disse que as FDS invadiram a Base \u201cS\u00edria\u201d, uma base dos insurgentes, situada no distrito de Macomia, tendo morto 108 terroristas em confrontos que duraram 72 horas, para al\u00e9m de destru\u00edrem seis acampamentos, 15 viaturas, 20 motorizadas e tr\u00eas toneladas de diversos produtos alimentares.<\/p>\n<p>Bernardino Rafael falava no decurso do XX Conselho Coordenador da PRM, realizado em Pemba. Se a inten\u00e7\u00e3o era apaziguar a na\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana, gorou-se a possibilidade porque logo depois, o Ministro do Interior, Amade Miquidade, disse em Maputo, que o ataque \u00e0 base saldou em 22 insurgentes mortos.<\/p>\n<p>Esse quadro de contradi\u00e7\u00e3o, confus\u00e3o e intriga entre as lideran\u00e7as policiais e militares parece consubstanciar as fontes militares do Centro de Jornalismo Investigativo (CJI).<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de exemplo, em Junho \u00faltimo as FDS ca\u00edram numa emboscada ao tentar uma investida contra a Base S\u00edria, que as nossas fontes argumentam havia sido planificada com rigor mas \u201ccom apoio dos crocodilos nossos colegas que vendem senhas- dar informa\u00e7\u00e3o aos bandidos sobre as nossas ac\u00e7\u00f5es, quantos somos que armas temos.\u201d As fontes chegaram a essa conclus\u00e3o porque por mais elementos que as for\u00e7as tivessem nas suas investidas contra as bases terroristas, estes \u00faltimos pareciam ter toda a informa\u00e7\u00e3o sobre \u201cquantos somos, que equipamento traz\u00edamos\u201d.<\/p>\n<p>Os terroristas t\u00eam at\u00e9 informa\u00e7\u00e3o sobre os comandantes dos batalh\u00f5es, isto porque, aparentemente, alguns deles at\u00e9 h\u00e1 algum tempo foram militares desmobilizados e que depois se juntaram aos terroristas. \u201cMuitos s\u00e3o desmobilizados. Os que foram desmobilizados est\u00e3o na linha do fogo,\u201d acrescentam as nossas fontes.<\/p>\n<p>Por exemplo, as fontes contam que existe um instrutor que veio la de Macanzene, prov\u00edncia de Gaza chamado Caix\u00e3o. Num ataque em Quissanga, \u201cos Al-Shabab estavam a gritar, a procura dele. Queremos-te aqui ao vivo. Muitos dos bandidos foram treinados pelo Caix\u00e3o, conhecem-no. Se capturarem o Caix\u00e3o, n\u00e3o v\u00e3o mat\u00e1-lo mas sim lev\u00e1-lo com eles para dar-lhes forma\u00e7\u00e3o, treinos. Caso recuse, s\u00f3 sai de l\u00e1 morto\u201d<\/p>\n<p>Aparentemente, o fluxo de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 nos dois sentidos mas em benef\u00edcio dos insurgentes, que tamb\u00e9m recebem informa\u00e7\u00e3o sobre as posi\u00e7\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas dos contingentes militares.<\/p>\n<p>Mas provavelmente esse cen\u00e1rio que ro\u00e7a \u00e0 lesa p\u00e1tria n\u00e3o aconteceria se o ex\u00e9rcito n\u00e3o funcionasse como um conjunto de pilha galinhas \u00e1vidos e sequiosos de fazer dinheiro. A narrativa que emerge \u00e9 de uma for\u00e7as de extors\u00e3o e corrupta at\u00e9 ao tutano.<\/p>\n<p>As fontes contam que se sabe que os insurgentes costumam movimentar avolumadas somas de dinheiro. \u201cEncontramos dois jovens. Sendo que, cada um tinha 100.000 meticais, iam a caminho do banco para fazer dep\u00f3sito, para enviar para os seus familiares., segundo as fontes. N\u00e3o revelaram a fonte do dinheiro. Foram detidos e levados ao quartel das for\u00e7as da Unidade de Interven\u00e7\u00e3o R\u00e1pida (UIR). Os interrogat\u00f3rios confirmaram serem insurgentes.<\/p>\n<p>Parte do dinheiro dos insurgentes parece sair da venda de recursos minerais como turmalina, ouro, entre outros. O dinheiro foi confiscado mas acabou nas m\u00e3os dos chefes. \u201cN\u00e3o vimos mais nada. (Os chefes) dividiram aquele dinheiro entre eles e ficaram calados,\u201d acrescentaram as fontes.<\/p>\n<p>Os insurgentes tiveram menos sorte. Aparentemente a pol\u00edtica oficiosa n\u00e3o \u00e9 de lev\u00e1-los \u00e0 cadeia e subsequentemente \u00e0s barras do tribunal. Quando n\u00e3o tombam em combate, s\u00e3o mandados para a lenha \u2013 um eufemismo significando execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria. Os relatos das fontes vem confirmar que o conflicto est\u00e1 a desumanizar as FDS, havendo uma linha muito t\u00e9nue entre a conduta dos militares e dos insurgentes.<\/p>\n<p>No auge dos combates que culminaram com a tomada da vila de Moc\u00edmboa da Praia pelos insurgentes, o batalh\u00e3o das nossas fontes foi obrigado a ir abastecer os seus camaradas de trincheiras mas tamb\u00e9m foi atacado. \u201cUm dos meus colegas que acabou morrendo nessa miss\u00e3o, capturou dois casais de elementos dos \u2018Al-Shabab\u2019. Mandou-lhes despir, obrigou-lhes a fazer o \u00faltimo sexo antes da morte,\u201d diz a fonte.<\/p>\n<p>\u201cEles transaram. Depois o meu colega que morreu la no combate, levou a baioneta e meteu na vagina da mulher, rasgou-a de baixo para cima, o mesmo que fez a outra,\u201d acrescenta. Em seguida, os homens come\u00e7aram a correr, fuga, mas um dos nossos colegas j\u00e1 tinha preparado o cano, disparou para a nuca do insurgente, imobilizou completamente-Morto.<\/p>\n<p>O envolvimento de mulheres no conflicto parece ser um dado novo. Faz algum sentido macabro a barb\u00e1rie a que os mo\u00e7ambicanos e o mundo foram expostos h\u00e1 coisa de dois meses atrav\u00e9s de um v\u00eddeo viralizado nas redes sociais, que mostrava o momento que as nossas for\u00e7as torturavam um mulher nua, para depois sem d\u00f3 nem piedade crivaram-na o corpo de balas.<\/p>\n<p>Esse desenvolvimento \u00e9 preocupante porque qualquer suspei\u00e7\u00e3o pode descambar em morte de uma mulher inocente. E o que piora a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 o facto de que as tropas parecem andar frustradas com rela\u00e7\u00e3o a pagamentos, e quem corre o risco de estar do outro lado da sua f\u00faria s\u00e3o os suspeitos indefesos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de pagamentos aos militares \u00e9 um pouco bicuda. O governo assinou um memorando de entendimento com a multinacional francesa Total visando o estabelecimento de uma for\u00e7a conjunta para a seguran\u00e7a do projecto de g\u00e1s natural. O acordo preconiza que a Total preste apoio log\u00edstico \u00e0 for\u00e7a conjunta.<\/p>\n<p>O memorando veio oficializar um arranjo n\u00e3o-oficial que remonta dos tempos do primeiro mandato do Presidente Filipe Nyusi, J\u00e1 nessa altura as FDS protegiam os interesses da multinacional, e na altura foi criada uma conta banc\u00e1ria para onde eram canalizados os dinheiros para o pagamento dos militares que integravam a for\u00e7a de protec\u00e7\u00e3o. O que sucedeu \u00e9 que em parte isso criou uma estratifica\u00e7\u00e3o remunerativa que, por conseguinte, cria um descontentamento entre as for\u00e7as.<\/p>\n<p>E como se n\u00e3o bastasse, os comandantes abocanham quase a maior parte do bolo fornecido pelas multinacionais. \u201cAqueles militares (comandos) l\u00e1 em Quelimane (quartel dos comandos) diziam que tudo era para os chefes, estavam descontentes. Aqueles Mazdas, Fortuner eram escoltados pelos comandos, mas o dinheiro ia para os seus chefes,\u201d acrescentam as fontes.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1s a ver esses insurgentes que a gente captura. Se tiverem algum dinheiro, aquele valor fica com os comandantes. Os primeiros insurgentes apanhavas no bolso com cerca de 700, 800 mil com eles. Isto foi em 2017, quando eu estava em Nangade. Desse dinheiro os militares que tivessem feito a deten\u00e7\u00e3o, recebiam entre 1.000 a 2.000 mil meticais, s\u00f3 para cada tropa beber,\u201d prosseguem as fontes.<\/p>\n<p>Por vezes as movimenta\u00e7\u00f5es de dinheiro no seio das FDS s\u00e3o motivo de suspei\u00e7\u00e3o. \u201cQuando o teu pr\u00f3prio colega percebe que tens dinheiro, olha-te com desconfian\u00e7a. Como quem diz: \u2018este deve ser um dos <em>crocodilos\u2019<\/em>.\u201d Crocodilo \u00e9 o termo que os militares utilizam para descrever um agente dos insurgentes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-2442\" src=\"https:\/\/cjimoz.org\/news\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ibn-400x219.jpg\" alt=\"\" width=\"763\" height=\"417\" \/><\/p>\n<p>Mais: na era das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o h\u00e1 alguns militares possu\u00eddos pela febre dos <em>selfies<\/em> fotografam-se, colocam as fotografias e videos nas redes sociais, denunciando a sua posi\u00e7\u00e3o. Foi o que sucedeu quando uma vez os militares se preparavam para atacar a Base S\u00edria, em Julho de 2020. De repente estavam a circular imagens pela rede social Whatsapp a publicitar que \u201cj\u00e1 vamos invadir a S\u00edria, entras daa ADDP como se fosses a Quissanga, Bilibiza. Os insurgentes j\u00e1 estavam em cima das \u00e1rvores bem posicionados, a nossa espera. Houve fuga de informa\u00e7\u00e3o. Esta quest\u00e3o da venda de senha continua.\u201d. Ora, os insurgentes tamb\u00e9m est\u00e3o nessas redes e n\u00e3o se precisar de se ter a intelig\u00eancia de Albert Einstein para se adivinhar o desfecho.<\/p>\n<p>Retomou-se o ataque \u00a0No m\u00eas passado Julho de 2020 fomos novamente quando fomos atacar os \u2018Al-Shabab\u2019\u00a0 , conseguimos combater retirar los de l\u00e1 mas pouco tempo depois os pr\u00f3prios \u2018Al-Shabab\u2019 , recome\u00e7aram com o ataque. N\u00f3s la matamos e chamboqueamos, s\u00f3 quando ficamos convencidos de que tudo estava controlado, dois dias mais tarde, la ficou a arder, os \u2018Al-Shabab\u2019 atacaram.<\/p>\n<p>Quando os insurgentes v\u00eam atacar j\u00e1 sabem quantos militares est\u00e3o naquela ou esta posi\u00e7\u00e3o. As vezes encontram -te desprevenido. Os insurgentes atacam no formato L. Pensas que estas a atingir os insurgentes mas da forma como o L foi feito tu acabas indo na direc\u00e7\u00e3o deles, muitos dos nossos perderam vida.<\/p>\n<p>As vezes t\u00ednhamos que amarar pano nos olhos s\u00f3 para n\u00e3o ficarmos com aquelas imagens chocantes na nossa mente. Tens mi\u00fados de 14 anos, os insurgentes d\u00e3o \u2013 lhes 1000, 5000 mil meticais. Tu podes acabar aceitando entrar no esquema (vigiar) \u201d<\/p>\n<p>Do Quartel militar improvisado na Escola primaria de Quelimane que dista a cerca de 75 quil\u00f3metros de Palma e uns 7 da rotunda de Moc\u00edmboa da praia, 333 de Pemba. Ente os dias 4 e 8 de Agosto de 2019 que um batalh\u00e3o de comandos sofreu uma emboscada, tendo sido mortos cerca de 80 militares. \u201cO que aconteceu ali foi uma emboscada, muito bem organizada. Tinham toda a informa\u00e7\u00e3o, coordenadas.\u201d<\/p>\n<p>As fontes acusam os comandantes de tamb\u00e9m n\u00e3o estarem a ajudar. \u201cN\u00e3o h\u00e1 disparos. Pode aparecer o inimigo, n\u00e3o atirem. Ouvir-se a voz do chefe do batalh\u00e3o, a voz dele a dar comando ao militares para n\u00e3o atirarem sobre os terroristas, a dizer n\u00e3o respondam. Se o comandante n\u00e3o autoriza a disparar, quem \u00e9 voc\u00ea para disparar,\u201d questionam as fontes.<\/p>\n<p>Segundo as fontes, onde as FDS s\u00e3o bem-sucedidas \u00e9 quando desobedecem os chefes, o que, na concep\u00e7\u00e3o deles, pode sugerir que alguns comandantes est\u00e3o em conluio com os terroristas.<\/p>\n<p>Primeiro, porque h\u00e1 momentos em que se pode montar uma emboscada contra os insurgentes, mas logo o comandante pode abortar o ataque. \u201cDaquela vez que quer\u00edamos bombardear a Base S\u00edria, os do governo negaram. Por que estavam a negar,\u201d indagam-se as fontes.<\/p>\n<p>Houve uma situa\u00e7\u00e3o em que helic\u00f3pteros levantaram v\u00f4o para mais uma ac\u00e7\u00e3o de reconhecimento, s\u00f3 que interceptou-se uma chamada para os insurgentes e tiveram que abordar a miss\u00e3o. Quando regressaram, fez-se a formatura e ligou-se para o n\u00famero interceptado. \u201cA pessoa foi apanhada. Era um chefe e n\u00e3o um soldado qualquer,\u201d rematam as fontes, acrescentando que h\u00e1 muitos infiltrados no seio das FDS. (CJI)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estacio Valoi A narrativa oficial sobre as For\u00e7as de Defesa e Seguran\u00e7a (FDS) de Mo\u00e7ambique \u00e9 de militares e pol\u00edcias que com bravura, patriotismo e esp\u00edrito abnegado defendem a soberania nacional contra os ataques perpetrados pelos insurgentes isl\u00e2micos em Cabo Delgado. 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