{"id":3529,"date":"2026-05-20T06:33:40","date_gmt":"2026-05-20T04:33:40","guid":{"rendered":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/?p=3529"},"modified":"2026-05-20T10:13:04","modified_gmt":"2026-05-20T08:13:04","slug":"manual-para-retalhar-uma-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/manual-para-retalhar-uma-costa\/","title":{"rendered":"Manual para Retalhar uma Costa"},"content":{"rendered":"<p>Por Estacio Valoi e Lu\u00eds Nhachote<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o sobre territ\u00f3rio, poder e futuro em Inhambane<\/p>\n<div id=\"attachment_3561\" style=\"width: 2570px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3561\" class=\"size-full wp-image-3561\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/IMG_9672-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1707\" \/><p id=\"caption-attachment-3561\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Estacio Valoi\/Vilankulo<\/p><\/div>\n<p>&#8211; A Haiyu recebeu as nossas quest\u00f5es h\u00e1 mais de um m\u00eas para exerc\u00edcio do sagrado direito ao contradit\u00f3rio, mas at\u00e9 agora n\u00e3o se dignou a responder<\/p>\n<p>Em Vilankulo, um incomensur\u00e1vel destino paradis\u00edaco da costa de Inhambane, famoso por ser o principal ponto de partida para o arquip\u00e9lago de Bazaruto, a paisagem est\u00e1 a mudar rapidamente em alguns lugares e longe do escrut\u00ednio p\u00fablico.<br \/>\nDesde 2025, maquinaria pesada opera sobre dunas costeiras deste distrito da prov\u00edncia de Inhambane. A extra\u00e7\u00e3o de areias pesadas j\u00e1 est\u00e1 em curso. N\u00e3o foi anunciada com grande debate p\u00fablico. N\u00e3o ocupou o centro da agenda nacional. Mas no terreno, a transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel. Escavadoras avan\u00e7am sobre dunas pr\u00f3ximas da linha costeira. Cami\u00f5es circulam continuamente entre \u00e1reas de extra\u00e7\u00e3o. Em alguns pontos, moradores relatam restri\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o perto das zonas concessionadas.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o \u00e9 conduzida pela Haiyu Mozambique Mining Co. Lda, subsidi\u00e1ria de um grupo mineiro de capitais maioritariamente chineses, com concess\u00f5es destinadas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de minerais como ilmenite e zirc\u00e3o, recursos altamente valorizados no mercado internacional.<br \/>\nDocumentos e registos obtidos ou consultados pelo Centro de Jornalismo Investigativo (CJI) apontam para um projeto de larga escala: concess\u00f5es de longa dura\u00e7\u00e3o, reservas estimadas em dezenas de milh\u00f5es de toneladas e investimentos avaliados em centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares.<br \/>\nMas existe uma lacuna central: a dimens\u00e3o do projeto n\u00e3o foi acompanhada por um n\u00edvel proporcional de transpar\u00eancia p\u00fablica. Quem autorizou a explora\u00e7\u00e3o? Em que condi\u00e7\u00f5es? Com que estudos? E sob que mecanismos de fiscaliza\u00e7\u00e3o? As d\u00favidas come\u00e7am precisamente a\u00ed.<\/p>\n<div style=\"width: 848px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-3529-1\" width=\"848\" height=\"480\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/vila-site-2.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/vila-site-2.mp4\">https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/vila-site-2.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p><strong><br \/>\nExtra\u00e7\u00e3o em curso, fiscaliza\u00e7\u00e3o incerta<\/strong><\/p>\n<p>Nas dunas costeiras, a atividade n\u00e3o \u00e9 discreta. Em Fevereiro, a nossa equipa do CJI esteve no local e verificou escava\u00e7\u00e3o intensiva, circula\u00e7\u00e3o constante de cami\u00f5es e remo\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de areia de forma\u00e7\u00f5es naturais que funcionam como barreiras contra a eros\u00e3o costeira. Estas dunas n\u00e3o s\u00e3o apenas areia. Funcionam como infra-estruturas naturais de prote\u00e7\u00e3o territorial.<br \/>\nA sua remo\u00e7\u00e3o levanta uma quest\u00e3o direta: Quem est\u00e1 a monitorar os impactos \u2014 e com que independ\u00eancia?<br \/>\nO licenciamento ambiental tornou-se um dos pontos mais opacos do projeto. Fontes locais e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil questionam: se o Estudo de Impacto Ambiental foi devidamente validado; se as consultas p\u00fablicas foram efetivamente inclusivas; e se as condicionantes ambientais est\u00e3o a ser cumpridas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 precedentes preocupantes.<\/strong><\/p>\n<p>Estudos anteriores relacionados com explora\u00e7\u00e3o mineira naquela faixa costeira foram contestados por falhas t\u00e9cnicas e insuficiente envolvimento comunit\u00e1rio.<br \/>\nApesar disso, a atividade extractiva avan\u00e7ou sem relat\u00f3rios p\u00fablicos atualizados e sem mecanismos vis\u00edveis de presta\u00e7\u00e3o de contas.<br \/>\nNa aldeia de Belane, Chipanzane, alguns moradores descrevem um ambiente crescente de restri\u00e7\u00e3o e tens\u00e3o junto \u00e0 \u00e1rea de explora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHabitantes locais relatam que o acesso a certas zonas pr\u00f3ximas da praia passou a ser limitado por seguran\u00e7as privados da mineradora. Alguns descrevem epis\u00f3dios envolvendo disparos de advert\u00eancia com armas de fogo.<br \/>\n\u201cDiziam que ningu\u00e9m podia passar\u201d, contou um residente.<\/p>\n<p>Os relatos n\u00e3o puderam ser verificados de forma independente junto da empresa at\u00e9 ao fecho desta edi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDados de concess\u00f5es mineiras consultados pelo CJI indicam que cerca de 70% da linha costeira da prov\u00edncia de Inhambane \u2014 aproximadamente 353 mil hectares \u2014 j\u00e1 foi atribu\u00edda \u00e0 prospe\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de areias pesadas nos dez distritos costeiros da prov\u00edncia.<br \/>\nAs \u00e1reas concessionadas incluem zonas pr\u00f3ximas: do Parque Nacional do Arquip\u00e9lago de Bazaruto; do Santu\u00e1rio Bravio de Vilankulo; da Ba\u00eda de Inhambane; dos lagos de Quissico; e da Lagoa Poelela. Paralelamente, uma vasta \u00e1rea offshore foi reservada para testes s\u00edsmicos e explora\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos. Sem grande debate p\u00fablico, uma transforma\u00e7\u00e3o silenciosa parece estar em curso na costa mo\u00e7ambicana. E a pergunta torna-se inevit\u00e1vel:<br \/>\nQuem est\u00e1 a decidir o futuro da costa de Inhambane \u2014 e em nome de qu\u00ea?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Licen\u00e7as, lobistas e o Estado<\/strong><\/p>\n<p>Para atrair investimento estrangeiro directo, o Estado mo\u00e7ambicano introduziu ao longo dos \u00faltimos anos um conjunto de incentivos fiscais destinados ao sector extrativo, incluindo isen\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, benef\u00edcios aduaneiros e facilidades tribut\u00e1rias.<br \/>\nO resultado foi o r\u00e1pido crescimento de concess\u00f5es atribu\u00eddas a empresas estrangeiras, particularmente em zonas costeiras consideradas estrat\u00e9gicas.<br \/>\nCr\u00edticos do modelo defendem, no entanto, que os benef\u00edcios econ\u00f4micos permanecem concentrados em elites pol\u00edticas e empresariais, enquanto comunidades locais continuam expostas aos impactos sociais e ambientais da minera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm Inhambane, essa expans\u00e3o levanta uma quest\u00e3o cada vez mais presente entre organiza\u00e7\u00f5es ambientais, operadores tur\u00edsticos e comunidades locais:<br \/>\nAt\u00e9 que ponto o Estado est\u00e1 a equilibrar conserva\u00e7\u00e3o ambiental e explora\u00e7\u00e3o mineira?<br \/>\nEm 2024, durante contactos com a equipa de investiga\u00e7\u00e3o, o diretor-adjunto da Haiyu Mozambique Mining Co. Lda, Juyi Li (\u201cFrancisco\u201d), afirmou que a empresa possu\u00eda:<br \/>\n\u25cf DUAT;<br \/>\n\u25cf licen\u00e7a ambiental;<br \/>\n\u25cf e autoriza\u00e7\u00e3o oficial para explora\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de areias pesadas.<br \/>\nSegundo afirmou, os documentos seriam posteriormente enviados ao CJI.<\/p>\n<p>At\u00e9 ao momento da publica\u00e7\u00e3o, isso n\u00e3o aconteceu.<br \/>\nAo mesmo tempo, fontes ligadas ao sector ambiental afirmam que estudos anteriores relacionados com a explora\u00e7\u00e3o mineira naquela faixa costeira levantaram reservas t\u00e9cnicas importantes.<\/p>\n<div id=\"attachment_3532\" style=\"width: 2570px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3532\" class=\"size-full wp-image-3532\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/IMG_9677-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1707\" \/><p id=\"caption-attachment-3532\" class=\"wp-caption-text\">Foto; Estacio Valoi\/ mina da HM \/Vilankulo<\/p><\/div>\n<p><strong>O EIA contestado<\/strong><\/p>\n<p>Um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) associado ao projeto tornou-se um dos pontos mais controversos do processo.<br \/>\nDocumentos consultados pelo CJI mostram que pareceres t\u00e9cnicos e contribui\u00e7\u00f5es de diferentes entidades levantaram d\u00favidas profundas sobre: a viabilidade ambiental do projecto; a qualidade da avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica; e os riscos para ecossistemas costeiros cr\u00edticos.<br \/>\nO estudo alertava para: destrui\u00e7\u00e3o de dunas costeiras; contamina\u00e7\u00e3o marinha; assoreamento; risco para recifes de coral; dispers\u00e3o de poeiras minerais; e poss\u00edveis impactos sobre a biodiversidade protegida.<\/p>\n<p><strong>Uma das conclus\u00f5es do parecer t\u00e9cnico era particularmente severa:<br \/>\n\u201cO projeto em si \u00e9 completamente inadequado para esta \u00e1rea.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3573\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/a11.jpeg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"900\" \/><\/p>\n<p>Especialistas ambientais afirmam ainda que os fluxos de \u00e1guas residuais previstos no projecto foram apresentados no EIA de forma excessivamente simplificada, sem informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica suficiente para avalia\u00e7\u00e3o independente robusta. O documento questiona igualmente os potenciais impactos do m\u00e9todo de dragagem por suc\u00e7\u00e3o proposto pela empresa, alertando para risco de assoreamento, contamina\u00e7\u00e3o marinha e destrui\u00e7\u00e3o de recifes de coral. As preocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o se limitam \u00e0 minera\u00e7\u00e3o terrestre.<br \/>\nParalelamente \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de areias pesadas, surgem propostas de testes s\u00edsmicos offshore numa \u00e1rea ecologicamente sens\u00edvel pr\u00f3xima de zonas de conserva\u00e7\u00e3o reconhecidas internacionalmente.<\/p>\n<p>Especialistas ambientais alertam que esses projectos podem afetar: ecossistemas marinhos fr\u00e1geis; esp\u00e9cies amea\u00e7adas; popula\u00e7\u00f5es de peixe; e a \u00faltima popula\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel de dugongos do Oceano \u00cdndico Ocidental.<br \/>\nNa prov\u00edncia de Inhambane, onde grande parte da popula\u00e7\u00e3o depende directamente do mar, o receio \u00e9 crescente.<br \/>\nA Natural Justice, a Justi\u00e7a Ambiental e outras organiza\u00e7\u00f5es anunciaram iniciativas legais e pedidos formais de esclarecimento junto do Minist\u00e9rio dos Recursos Minerais e Energia (MIREME) e da Direc\u00e7\u00e3o Nacional do Ambiente (DINAB).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3571\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/a4.jpeg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"900\" \/><br \/>\nAs organiza\u00e7\u00f5es pretendem questionar: a validade dos processos ambientais; o cumprimento das exig\u00eancias legais; e a legalidade da explora\u00e7\u00e3o j\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>Segundo uma nota informativa datada de 31 de Julho de 2025, consultada pelo CJI, representantes de organiza\u00e7\u00f5es ambientais reuniram-se com autoridades provinciais e distritais de Inhambane para apresentar imagens a\u00e9reas da explora\u00e7\u00e3o activa e expressar preocupa\u00e7\u00f5es relativas a: danos ambientais; lacunas regulat\u00f3rias; e potenciais impactos negativos sobre a economia tur\u00edstica regional.<br \/>\nDe acordo com a mesma nota, o governador provincial ter\u00e1 solicitado um sobrevoo da \u00e1rea para elabora\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio pr\u00f3prio destinado \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3570\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/a3.jpeg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"900\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3569\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/a2.jpeg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"900\" \/><\/p>\n<p>Enquanto isso, a atividade mineira prossegue no terreno. E a quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas ambiental. Tornou-se institucional.<\/p>\n<p><strong>Territ\u00f3rio Cercado<\/strong><br \/>\nSe no exterior da concess\u00e3o as d\u00favidas recaem sobre ambiente e licenciamento, no interior da opera\u00e7\u00e3o come\u00e7am a surgir den\u00fancias relacionadas com condi\u00e7\u00f5es de trabalho e tratamento de trabalhadores locais.<\/p>\n<div style=\"width: 478px;\" class=\"wp-video\"><video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-3529-2\" width=\"478\" height=\"850\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/demostartion-in-Front-of-Hayiu-Mimning-week-ago.mp4?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/demostartion-in-Front-of-Hayiu-Mimning-week-ago.mp4\">https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/demostartion-in-Front-of-Hayiu-Mimning-week-ago.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>O CJI recolheu m\u00faltiplos testemunhos de trabalhadores que descrevem um ambiente marcado por aus\u00eancia de categorias profissionais, sobreposi\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es e intimida\u00e7\u00e3o perante reclama\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u201cAqui fazes tudo\u201d, relata um trabalhador. \u201cHoje \u00e9s mec\u00e2nico, amanh\u00e3 cozinheiro, depois eletricista.\u201d<br \/>\nOutros descrevem aus\u00eancia de progress\u00e3o profissional e sal\u00e1rios sem diferencia\u00e7\u00e3o entre fun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas distintas.<br \/>\n\u201cTens que ensinar quem entra e ele j\u00e1 ganha o mesmo que tu.\u201d<br \/>\nAs reclama\u00e7\u00f5es estendem-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com superiores hier\u00e1rquicos.<br \/>\n\u201cA comida \u00e0s vezes nem est\u00e1 bem cozida.\u201d \u201cQuando reclamamos, amea\u00e7am mandar-nos embora.\u201d<br \/>\nOs relatos descrevem ainda um ambiente de press\u00e3o psicol\u00f3gica e tratamento considerado degradante por alguns trabalhadores entrevistados. At\u00e9 ao momento, a empresa n\u00e3o respondeu publicamente \u00e0s alega\u00e7\u00f5es. As den\u00fancias surgem num contexto mais amplo de tens\u00e3o local.<\/p>\n<p>Em comunidades pr\u00f3ximas da explora\u00e7\u00e3o, moradores relatam restri\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o e crescente sensa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o em \u00e1reas tradicionalmente utilizadas para<\/p>\n<p>pesca, acesso \u00e0 praia e atividades comunit\u00e1rias.<br \/>\nNa prov\u00edncia de Inhambane, onde cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o depende diretamente das zonas costeiras para subsist\u00eancia di\u00e1ria, o receio \u00e9 que os impactos ambientais rapidamente se transformem numa crise econ\u00f3mica e social.<br \/>\nEspecialistas ambientais alertam ainda para potenciais impactos sobre a \u00faltima popula\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel de dugongos do Oceano \u00cdndico Ocidental.<br \/>\nOrganiza\u00e7\u00f5es ambientais defendem que testes s\u00edsmicos e minera\u00e7\u00e3o costeira poder\u00e3o afectar: rotas ecol\u00f3gicas; reprodu\u00e7\u00e3o marinha; popula\u00e7\u00f5es de peixe; e ecossistemas altamente sens\u00edveis.<br \/>\nPara comunidades piscat\u00f3rias vulner\u00e1veis, a redu\u00e7\u00e3o de pescado significaria perda directa de rendimento e sobreviv\u00eancia. A minera\u00e7\u00e3o, para muitos habitantes locais, chegou antes que explica\u00e7\u00f5es claras fossem dadas. E em v\u00e1rios pontos da costa, o sentimento dominante j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas expectativa econ\u00f3mica. \u00c9 incerteza.<\/p>\n<div id=\"attachment_3566\" style=\"width: 2570px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3566\" class=\"size-full wp-image-3566\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/IMG_9702-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1707\" \/><p id=\"caption-attachment-3566\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Estacio Valoi\/Belene\/Vilankulo<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Padr\u00e3o Haiyu<\/strong><\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es em Inhambane ganham maior dimens\u00e3o quando analisadas \u00e0 luz do hist\u00f3rico da Haiyu Mozambique Mining Co. Lda noutras regi\u00f5es do pa\u00eds.<br \/>\nEntre 2011 e 2015, a empresa operou em Nagonha, distrito de Angoche, prov\u00edncia de Nampula. Em 2018, a Amnistia Internacional publicou um relat\u00f3rio documentando alega\u00e7\u00f5es de: destrui\u00e7\u00e3o de dunas costeiras; inunda\u00e7\u00f5es; deposi\u00e7\u00e3o de res\u00edduos mineiros; perda de terras; deslocamento de fam\u00edlias; e impactos sobre comunidades pesqueiras.<\/p>\n<p>Segundo o relat\u00f3rio, cerca de 290 pessoas ficaram sem habita\u00e7\u00e3o ap\u00f3s mudan\u00e7as ambientais associadas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o mineira. O documento descreve ainda: destrui\u00e7\u00e3o de florestas costeiras de Miombo; soterramento de lagoas; altera\u00e7\u00e3o de cursos de \u00e1gua; e exposi\u00e7\u00e3o de comunidades a res\u00edduos potencialmente t\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Agora, em Inhambane, organiza\u00e7\u00f5es ambientais e setores da sociedade civil questionam se um padr\u00e3o semelhante poder\u00e1 estar a repetir-se.<br \/>\nA pr\u00f3pria dimens\u00e3o da concess\u00e3o levanta preocupa\u00e7\u00f5es adicionais.<br \/>\nFontes consultadas pelo CJI apontam para planos de expans\u00e3o log\u00edstica associados \u00e0 actividade extractiva, incluindo poss\u00edveis infraestruturas portu\u00e1rias destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o mineral.<\/p>\n<p>Se confirmados, esses planos alterariam completamente a escala do projecto.<br \/>\nA opera\u00e7\u00e3o deixaria de ser apenas uma mina costeira para integrar um corredor extractivo-industrial com impacto estrutural sobre o litoral de Inhambane.<br \/>\n\u00c9 precisamente nesta costa que coexistem: ecossistemas marinhos fr\u00e1geis; turismo internacional; pesca artesanal; conserva\u00e7\u00e3o ambiental; e milhares de fam\u00edlias dependentes do equil\u00edbrio ecol\u00f3gico local.<\/p>\n<p>Centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares foram investidos ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas na paisagem mar\u00edtima de Inhambane, particularmente em turismo sustent\u00e1vel, conserva\u00e7\u00e3o ambiental e economia azul. Operadores tur\u00edsticos e organiza\u00e7\u00f5es ambientais receiam agora que o avan\u00e7o simult\u00e2neo de minera\u00e7\u00e3o, testes s\u00edsmicos e poss\u00edveis infraestruturas petroqu\u00edmicas comprometa irreversivelmente um dos mais importantes ecossistemas costeiros da \u00c1frica Austral.<br \/>\nA pergunta que emerge no final desta primeira parte da nossa investiga\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 minera\u00e7\u00e3o. Diz respeito ao futuro da pr\u00f3pria costa mo\u00e7ambicana.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3572\" src=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/a5.jpeg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"900\" \/><\/p>\n<p><strong>Quem est\u00e1 a decidir essa transforma\u00e7\u00e3o \u2014 e em nome de quem? <\/strong><br \/>\nA Haiyu recebeu as nossas quest\u00f5es h\u00e1 mais de um m\u00eas para exerc\u00edcio do sagrado direito ao contradit\u00f3rio, mas at\u00e9 agora n\u00e3o se dignou a responder.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Estacio Valoi e Lu\u00eds Nhachote &nbsp; &nbsp; Uma investiga\u00e7\u00e3o sobre territ\u00f3rio, poder e futuro em Inhambane &#8211; A Haiyu recebeu as nossas quest\u00f5es h\u00e1 mais de um m\u00eas para exerc\u00edcio do sagrado direito ao contradit\u00f3rio, mas at\u00e9 agora n\u00e3o se dignou a responder Em Vilankulo, um incomensur\u00e1vel destino paradis\u00edaco da costa de Inhambane, famoso [&hellip;]<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":3530,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[273,271],"tags":[],"rttpg_featured_image_url":{"full":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-scaled.jpg",2560,1707,false],"landscape":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-scaled.jpg",2560,1707,false],"portraits":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-scaled.jpg",2560,1707,false],"thumbnail":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-250x167.jpg",150,100,true],"medium":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-400x267.jpg",300,200,true],"large":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-650x433.jpg",650,433,true],"1536x1536":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-1536x1024.jpg",1536,1024,true],"2048x2048":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-2048x1365.jpg",2048,1365,true],"trp-custom-language-flag":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-18x12.jpg",18,12,true],"post-thumbnail":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-150x100.jpg",150,100,true],"retina2x":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-800x533.jpg",800,533,true],"retina3x":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-1200x800.jpg",1200,800,true],"retina4x":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-1600x1067.jpg",1600,1067,true],"retina5x":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-2000x1333.jpg",2000,1333,true],"retina6x":["https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Foto-Estacio-ValoiBelane-ChipanzaneJPG-2400x1600.jpg",2400,1600,true]},"rttpg_author":{"display_name":"Reda\u00e7\u00e3o CJIMOZ","author_link":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/author\/hcuambe\/"},"rttpg_comment":1,"rttpg_category":"<a href=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/category\/direitos-humanos\/\" rel=\"category tag\">Direitos Humanos<\/a> <a href=\"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/en\/category\/corrupcao\/\" rel=\"category tag\">Corrup\u00e7\u00e3o<\/a>","rttpg_excerpt":"Por Estacio Valoi e Lu\u00eds Nhachote &nbsp; 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