{"id":2444,"date":"2020-09-15T09:04:16","date_gmt":"2020-09-15T07:04:16","guid":{"rendered":"https:\/\/cjimoz.org\/news\/?p=2444"},"modified":"2020-10-01T09:09:55","modified_gmt":"2020-10-01T07:09:55","slug":"os-gladiadores-da-reserva-do-niassa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/os-gladiadores-da-reserva-do-niassa\/","title":{"rendered":"Os Gladiadores da reserva do Niassa"},"content":{"rendered":"<p><strong>S\u00e3o cerca de vinte horas e trinta minutos na sede do Distrito de Mecula. Estamos a 5 de Agosto de 2020. De repente irrompem vozes em grito de socorro, ouvem-se batuques, eco de balas disparadas para o ar, algo que a dado momento me fez pensar estarmos perante mais uma tentativa de ataque dos alegados \u201cAl-shabab\u201d depois de terem sido recha\u00e7ados aquando da sua tentativa de entrada no princ\u00edpio deste ano. Estava completamente enganado, tratava-se de algo mais complicado que j\u00e1 dura faz tempo. Era a popula\u00e7\u00e3o local, fiscais que munidos de latas, armas que afugentavam os paquidermes, b\u00fafalos. Est\u00e1cio Valoi do Centro de Jornalismo Investigativo esteve l\u00e1 e conta o que reviu.<\/strong><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2446\" src=\"https:\/\/cjimoz.org\/news\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RESERVA-85-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p>Faz poucos anos que na Reserva Nacional do Niassa uma m\u00e9dia de cinco elefantes eram abatidos por dia. Como resultado, a popula\u00e7\u00e3o de elefantes em Niassa reduziu drasticamente de 20.374 para menos de 13.000 entre 2009 e 2013. A matan\u00e7a pelo marfim por sindicatos organizados estava sendo realizada numa escala &#8220;industrializada&#8221; &#8211; entre 1.500 e 1.800 elefantes est\u00e3o sendo ca\u00e7ados por ano, principalmente no norte de Mo\u00e7ambique, envolvendo tanzanianos, somalianos e chineses com coniv\u00eancia de l\u00edderes da nomenklatura politica mo\u00e7ambicana.<\/p>\n<p>Segundo Baldeu Chande, a Reserva Nacional do Niassa come\u00e7a a ganhar forma dos anos 2000 a 2006, e desenhou-se a estrat\u00e9gia com o prop\u00f3sito de dar um significado ecol\u00f3gico assim como na contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento socioecon\u00f3mico das comunidades, n\u00e3o dando maior prioridade ao desenvolvimento ambiental em detrimento daquilo que \u00e9 o desenvolvimento humano, equilibrando as duas coisas.<\/p>\n<p>Aumentou o n\u00famero de elefantes, mas em contra partida o conflito homem animal agudizou-se, as comunidades locais est\u00e3o saturadas e medidas urgentes s\u00e3o precisas para a protec\u00e7\u00e3o das pessoas, facto que caso medidas concretas n\u00e3o sejam tomadas o cen\u00e1rio poder\u00e1 ser catastr\u00f3fico, \u201cum conflito eminente\u201d. Esta informa\u00e7\u00e3o \u00e9 corroborada pelo administrador da Reserva Especial do Niassa, Baldeu Chande, segundo o qual \u201c\u00e9 necess\u00e1rio trazer as medidas para proteger as comunidades\u201d.<\/p>\n<p>Neste contexto espera-se que a veda\u00e7\u00e3o, uma separa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o perante uma coabita\u00e7\u00e3o quase que imposs\u00edvel. O maior apelo da comunidade est\u00e1 na mensagem \u201c\u00c9 instala\u00e7\u00e3o de uma veda\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><iframe title=\"Os Gladiadores da Reserva do Niassa\" width=\"1778\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/N1ewYkWj79U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Zero Elefante abatido<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Jos\u00e9 Film\u00e3o Sitoe, chefe da fiscaliza\u00e7\u00e3o, os \u00faltimos 23 elefantes abatidos em resultado da ca\u00e7a furtiva foi registado em 2018, tendo-se durante os \u00faltimos 19 meses registado \u201czero elefantes\u201d abatidos. Este resultado deve-se ao aumento do efectivo-cria\u00e7\u00e3o, de uma for\u00e7a conjunta composta por fiscais ajuramentados da pr\u00f3pria Reserva, fiscais das coutadas, agentes UIR, Pol\u00edcia e a comunidade, assim como a transforma\u00e7\u00e3o dos games hunters para coutadas de conserva\u00e7\u00e3o e n\u00e3o ca\u00e7a, como antes acontecia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no tempo chuvoso, a Reserva tem um helic\u00f3ptero \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para facilitar o processo. Segundo Sitoe, os ca\u00e7adores sabem como os fiscais se locomovem e que at\u00e9 desafiam os fiscais. \u201cPodem vir ca\u00e7ar \u00e0 frente do seu posto que sabe que voc\u00ea n\u00e3o vai atravessar, de helic\u00f3ptero \u00e9 f\u00e1cil, \u00e9 multidisciplinar.\u201d E, os cinco Elefantes mortos no ano passado foram devido a doen\u00e7a, outros feridos por outros animais. Enfatizou Sitoe\u201d<\/p>\n<p>Mas este resultado teve como base segundo diz Sitoe, os chefes dos fiscais. Limpar a zona de concentra\u00e7\u00e3o do maior n\u00famero de furtivos ao longo do Rio Lugenda e outras \u00e1reas pelo meio, os v\u00e1rios desafios do fiscal no seu dia-a-dia, de tristeza, de choro. Neste trabalho complexo e duro, muito mal compreendido, h\u00e1 derramamento de sangue, h\u00e1 mortes, viol\u00eancia por ac\u00e7\u00e3o dos ca\u00e7adores furtivos que v\u00eam armados at\u00e9 aos dentes e tamb\u00e9m v\u00edtimas dos animais bravios\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fiscais ainda com problemas salariais <\/strong><\/p>\n<p>Segundo Baldeu, umas das quest\u00f5es que mais afecta o fiscal \u00e9 o salario e as negocia\u00e7\u00f5es entre a Reserva Especial do Niassa e a Biofund, que est\u00e1 em curso de forma a limar esta quest\u00e3o, \u201cestamos a negociar com a Biofund um pacote de financiamento, apoios que se fazem atrav\u00e9s da Administra\u00e7\u00e3o Nacional das \u00c1reas de Conserva\u00e7\u00e3o (ANAC).<\/p>\n<p>Apesar das infra-estruturas vistas dentro da Reserva, financiadas pela WCS \u2013 USAID, UNDP e outras como o governo Japon\u00eas e a reserva que ainda consegue providenciar \u201ca ra\u00e7\u00e3o, comprar os fardamentos e tamb\u00e9m comprar combust\u00edveis com aqui dois grandes financiadores WCS e a USAID\u201d a quest\u00e3o do salario \u00e9 um dos grandes problemas. \u00c9 o sal\u00e1rio que n\u00f3s pagamos ao fiscal, pagos atrav\u00e9s das receitas que n\u00f3s fazemos aqui\u201d.<\/p>\n<p><strong>Assist\u00eancia \u00e0s comunidades\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Segundo Samuel Bilerio, Veterin\u00e1rio da Reserva Especial do Niassa, que para al\u00e9m do seu trabalho principal faz assist\u00eancia \u00e0s comunidades no \u00e2mbito veterin\u00e1rio assim como a mitiga\u00e7\u00e3o do conflito que est\u00e1 mais focalizado para o elefante e o b\u00fafalo que representam o maior problema, pois as pessoas t\u00eam tanto medo do Elefante como do B\u00fafalo.\u201d<\/p>\n<p>Neste problema do conflito homem animal segundo Bilere, toda a assist\u00eancia necess\u00e1ria em casos de ferimento ou morte pelos animais, a reserva da assist\u00eancia \u00e0s comunidades a n\u00edvel local at\u00e9 ao hospital provincial em Lichinga. \u201cA gente tem dado assist\u00eancia na hora, desde o ferimento at\u00e9 \u00e0 morte. Disponibilizamos carros para levar a pessoa ao hospital local ou para o provincial de Lichinga, e no caso de \u00f3bitos n\u00f3s fazemos procedimentos do caso at\u00e9 ao fim, n\u00e3o deixamos a fam\u00edlia desamparada e fazemos perceber \u00e0s pessoas que a culpa n\u00e3o \u00e9 da reserva, pois o que estamos a tentar desenhar \u00e9 que haja uma coexist\u00eancia entre as comunidades e os animais\u201d.<\/p>\n<p>Erguer uma veda\u00e7\u00e3o el\u00e9trica convencional num raio de 110 a 135 quil\u00f3metros que vai separar a comunidade da parte da reserva \u00e9 o mais preocupante, mas que atrasou devido ao COVID-19 e o consultor e a empresa acabaram atrasando o procedimento, mas o material todo j\u00e1 foi pago e s\u00f3 falta montar-se a veda\u00e7\u00e3o, enfatizou Bilere.<\/p>\n<p>Mas a Neima ainda engessada, de muletas desde o m\u00eas de Maio, mal consegue caminhar sem meios financeiros para a sua alimenta\u00e7\u00e3o, outras necessidades assim como para deslocar-se \u00e0 Capital do Niassa, Lichinga para observa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, no dia 31 de Agosto, sem meios, sem carro. Para levar a crian\u00e7a e o seu Pai de volta a Lichinga n\u00e3o foi ter com o m\u00e9dico para o respetivo controlo.<\/p>\n<p><strong>Veda\u00e7\u00e3o e mais veda\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o da veda\u00e7\u00e3o, segundo o Delegado Distrital para os deficientes militares, Jeremias Martinho \u00a0Angale, a constru\u00e7\u00e3o da veda\u00e7\u00e3o vai demorando, o que deixa os membros da comunidade preocupados, passam-se meses e o ano est\u00e1 a terminar, n\u00e3o temos informa\u00e7\u00e3o clara. Dizem que o dinheiro para a constru\u00e7\u00e3o j\u00e1 entrou no Banco de Mo\u00e7ambique e que v\u00e3o entregar \u00e0 ANC, depois \u00e0 Reserva. Mas mesmo perguntando ao governo local, este n\u00e3o diz nada, n\u00f3s aqui estamos a viver em dois governos &#8211; um governo do povo que \u00e9 administrador do distrito fala a sua coisa, um governo da reserva fala a sua coisa, e aqui sem justi\u00e7a de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 o povo e a pr\u00f3pria comunidade\u201d.<\/p>\n<p>Quanto aos 20% de benef\u00edcio econ\u00f3mico prometido \u00e0s comunidades locais, capacita\u00e7\u00e3o de pessoal e reabilita\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o por meio da constru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de infra-estruturas de gest\u00e3o e reintrodu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies emblem\u00e1ticas para atrac\u00e7\u00e3o tur\u00edstica e recupera\u00e7\u00e3o de ecossistemas, segundo os guardas, \u201cnada foi pago \u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2445\" src=\"https:\/\/cjimoz.org\/news\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RESERVA-82-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p><strong>Mas nem tudo \u00e9 um mar de rosas<\/strong><\/p>\n<p><strong>continua a ca\u00e7a do Le\u00e3o e outras esp\u00e9cies <\/strong><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil dizer se \u00e9 alto ou n\u00e3o, porque s\u00e3o animais que normalmente os seus trof\u00e9us n\u00e3o s\u00e3o muito duradouros, mas s\u00e3o poucos e tamb\u00e9m t\u00eam aquilo que eu costumo chamar a ci\u00eancia africana de medicina que acaba recorrendo a esses produtos, acaba dissimulando e por ai n\u00e3o temos esse indicador de medi\u00e7\u00e3o, e em Mo\u00e7ambique temos um regulamento, n\u00e3o h\u00e1 outro pa\u00eds, os animais que n\u00f3s estamos a abater s\u00e3o animais de facto que n\u00e3o t\u00eam um grande impacto na din\u00e2mica da popula\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie, e \u00e9 por isso que foi reconhecida pelos cientistas. De facto os Estados Unidos recebem os nossos trof\u00e9us, diz Chande.<\/p>\n<p>Facto este reconfirmado por alguns fiscais, a ca\u00e7a do Le\u00e3o ainda est\u00e1 em investiga\u00e7\u00e3o porque \u00e9 uma ca\u00e7a furtiva biol\u00f3gica, com recurso ao uso de produtos qu\u00edmicos, por isso \u00e9 dif\u00edcil descobrir, est\u00e1 muito complicado e \u00e9 preciso a gente continuar a investigar.<\/p>\n<p><strong>Armadilhas prontas <\/strong><\/p>\n<p>Segundo Sitoe foram quase 500 armadilhas encontradas s\u00f3 no primeiro semestre deste ano na ca\u00e7a a animais de pequeno porte e est\u00e1 subindo um bocado. No m\u00eas de Agosto tiv\u00e9mos mais cerca de 400 armadilhas, e quanto \u00e0 madeira, em Janeiro tivemos que capturar umas 556 t\u00e1buas e mais algumas mas n\u00e3o como antes, enfatizou Sitoe.<\/p>\n<p><strong>Casos em tribunal e detidos <\/strong><\/p>\n<p>Em tribunal segundo a RNN, foram 12 casos julgados, onde tr\u00eas destes, 4 pessoas foram condenadas a 12 anos de pris\u00e3o e outra delas a dois anos, convertidos em trabalho social, algo que n\u00e3o alegrou a reserva. N\u00e3o concord\u00e1mos. Tivemos que recorrer porque o Juiz entendeu que podia amnistiar no \u00e2mbito da COVID-19, mas tamb\u00e9m h\u00e1 limite de penas, classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o sei se foi falha ou o qu\u00ea, eles beneficiaram daquela amnistia, e isso foi no Niassa Tribunal Provincial.<\/p>\n<p>Segundo fontes, a \u00fanica ca\u00e7a furtiva deu-se fora da RNN no antigo Majune Safari, ao longo do rio Misenge onde Jemusse Daniel de nacionalidade tanzaniana foi capturado com um AK-47 com muni\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cNenhum fiscal assistiu ao seu julgamento e n\u00e3o cumpriu a pena, p\u00f3s-se em fuga, at\u00e9 agora continuamos \u00e0 procura desse indiv\u00edduo. Recuper\u00e1mos armas que foram usadas na ca\u00e7a furtiva dentro da Reserva nos anos de 2016 e 2017. Essas armas foram apreendidas em Majune no posto administrativo de Maqueia e a outra na sede do distrito de Marup\u00e1. Tamb\u00e9m mais tr\u00eas armas autom\u00e1ticas AK-47 e semiautom\u00e1ticas usadas na ca\u00e7a furtiva no Majune Safari, Liwire, Kambako. Na altura em 2015 durante um patrulhamento os furtivos foram perseguidos de helic\u00f3ptero, esconderam-se em Mau\u00e1, onde continuaram com a furtividade juntando-se com alguns furtivos da Prov\u00edncia de Cabo Delgado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o cerca de vinte horas e trinta minutos na sede do Distrito de Mecula. Estamos a 5 de Agosto de 2020. 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