{"id":2818,"date":"2023-05-22T08:08:06","date_gmt":"2023-05-22T06:08:06","guid":{"rendered":"https:\/\/cjimoz.org\/news\/?p=2818"},"modified":"2023-05-24T08:34:42","modified_gmt":"2023-05-24T06:34:42","slug":"as-feridas-psicologicas-o-lado-invisivel-da-guerra-em-cabo-delgado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cjimoz.org.mz\/news\/as-feridas-psicologicas-o-lado-invisivel-da-guerra-em-cabo-delgado\/","title":{"rendered":"As feridas psicol\u00f3gicas: o lado invis\u00edvel da guerra em Cabo Delgado"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\">Por CJI<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong><em>\u201cVi a minha sobrinha num centro de acolhimento, trazia uma capaluna como a que estend\u00edamos na porta, s\u00f3 que agora a nossa casa j\u00e1 n\u00e3o existe. Desde que cheguei a este centro de deslocados tenho mudan\u00e7as repentinas de humor. Durante 15 minutos posso chorar, posso rir-me ou estar deprimida e logo depois com o olhar perdido no horizonte\u201d,<\/em><\/strong> <strong>relata Renata, presa ainda \u00e0 recorda\u00e7\u00e3o de ver a sua filha crivada de balas no \u00faltimo assalto dos insurgentes ao cora\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do g\u00e1s, em Palma.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>As sequelas psicol\u00f3gicas que a guerra provocou em Cabo Delgado representam a parte mais desconhecida e oculta naquela regi\u00e3o. \u201cAs pessoas reagem de forma diferente, algumas est\u00e3o deprimidas, outras agitadas. Pode se detectar imediatamente um comportamento anormal. No hospital vemos em seguida que se trata de um deslocado sem perguntar-lhe de onde vem\u201d, narra um cl\u00ednico geral do Hospital Provincial de Pemba, um dos pontos da prov\u00edncia que vem recebendo o \u00eaxodo de pessoas que fogem das ac\u00e7\u00f5es dos insurgentes.<\/strong><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2828\" src=\"https:\/\/cjimoz.org\/news\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/IMG_2799-1600x1067-hokje.jpg\" alt=\"\" width=\"1067\" height=\"1600\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">\u201cTemos de encontrar solu\u00e7\u00f5es dur\u00e1veis\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Laura Bormes, respons\u00e1vel de comunica\u00e7\u00e3o do escrit\u00f3rio do ACNUR em Cabo Delgado disse ao CJI que a ag\u00eancia prestou apoio para 81 mil pessoas, um n\u00famero que representa menos de 10% do total de afectados. Contudo, nos distritos de Palma e Mueda pelo menos 15% das v\u00edtimas de viol\u00eancia baseada no g\u00e9nero recebe assist\u00eancia. Bormes reconhece \u201co grande problema \u00e9 a sustentabilidade do acompanhamento psicossocial do terrorismo. O Dr Antonio Saide de Carvalho, director do hospital provincial do hospital de Pemba, capital de Cabo Delgado, disse ao CJI que a prov\u00edncia tem \u201c 51 psic\u00f3logos, sendo que 7 est\u00e3o aqui e os restantes distribu\u00eddos pelos distritos\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Uma equipa do Instituto para o Desenvolvimento Econ\u00f3mico e Social (IDES) liderada pelo politic\u00f3logo Fidel Terrenciano, alerta sobre as feridas invis\u00edveis causadas pela insurg\u00eancia. O mais urgente num conflito armado \u00e9 tratar as feridas causadas pela guerra -lembra a ONG-, mas tamb\u00e9m \u00e9 urgente enfrentar os transtornos mentais e psicol\u00f3gicos que ocorrem e n\u00e3o s\u00e3o vistos.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">A popula\u00e7\u00e3o de Cabo Delgado percebe, mergulhada na perplexidade, como sua sa\u00fade mental vai se deteriorando seriamente. Uma constata\u00e7\u00e3o que, no entanto, se depara com a falta de cuidados especializados. \u201cDurante os primeiros dias que estive aqui, tivemos casos em que abordamos as pessoas e dissemos que \u00e9ramos psic\u00f3logos e quer\u00edamos ajudar e eles disseram que n\u00e3o queriam\u201d, diz um assistente humanit\u00e1rio espanhol, psic\u00f3logo de crise e volunt\u00e1rio. Uma das suas tarefas \u00e9 conquistar aos poucos a confian\u00e7a dos deslocados, aproximando-se deles por meio da amizade e da empatia. As v\u00edtimas sentem vergonha de pedir apoio, porque &#8211; frisa a ONG, que est\u00e1 no terreno desde o eclodir da agress\u00e3o &#8211; tinham casa pr\u00f3pria, trabalho, vida, e agora s\u00f3 vivem perdas: perda de fam\u00edlia; do bem; de tudo que costumavam fazer e amar. \u00abEles vivem com incerteza, com ambiguidade e sem saber como consertar as suas vidas. \u00c9 muito dif\u00edcil adaptar-se a uma nova vida, porque est\u00e1 tudo arruinado\u201d, explica uma volunt\u00e1ria, Mariza Mickoi, na sua dupla qualidade de profissional de sa\u00fade e de natural de Macomia que teve de fugir. Apesar das organiza\u00e7\u00f5es de ajuda humanit\u00e1ria prestarem assist\u00eancia psicol\u00f3gica elas tamb\u00e9m reconhecem, como no caso da IDES, que o apoio n\u00e3o abrange 10% dos deslocados.<\/p>\n<p class=\"p2\">Ap\u00f3s o trauma vivido, os profissionais de psicologia alertam que os menores s\u00e3o os que saem com mais facilidade do estado de stress a que foram submetidos, por meio de terapias art\u00edsticas, por exemplo. No entanto, para os pais, cujo \u00fanico sentimento de perten\u00e7a ao lar s\u00e3o os filhos, \u00e9 mais dif\u00edcil e tendem a superproteger as crian\u00e7as, o que pode ter um impacto negativo sobre eles. \u201cN\u00e3o \u00e9 hora de exigir dos pequenos, devemos eliminar qualquer brecha de dor e viol\u00eancia\u201d, acrescenta Mariza Mickoi.<\/p>\n<p class=\"p2\">\u201cEspero que Deus acabe com isso e possamos voltar. Agora preciso cuidar da minha sa\u00fade, devido ao stress sinto-me muito mal. Eu j\u00e1 tinha cabelos grisalhos uma semana depois de chegar a Paquite. Uma semana e estou assim\u201d, diz S\u00e9rgio Sanga, um deslocado de Macomia. &#8220;Que posso dizer? N\u00e3o tenho palavras para expressar o que aconteceu. Achei que era um sonho ruim. Voc\u00ea olha pela janela e v\u00ea balas a voar entre as casas, perto da sua, na escola que voc\u00ea frequentava\u2026\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p class=\"p2\">As pessoas mais afectadas pelo conflito s\u00e3o os deslocados, porque embora tenham fugido para \u00e1reas mais seguras, s\u00e3o lugares desconhecidos para eles, onde t\u00eam que sobreviver com poucos recursos, encontrar alojamento ou alimentar-se. Come\u00e7ando do zero com a cabe\u00e7a e o cora\u00e7\u00e3o partidos, com a incerteza de n\u00e3o saber se um dia voltar\u00e3o para sua cidade e rever seus entes queridos. A essas pessoas se somam os refugiados, que est\u00e3o tentando reconstruir suas vidas em outros pa\u00edses. O CJI sabe que muitos mo\u00e7ambicanos atravessarem a fronteira para Tanzania e outros encontram-se no Malawi.<\/p>\n<div id=\"attachment_2821\" style=\"width: 622px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2821\" class=\"wp-image-2821 size-full\" src=\"https:\/\/cjimoz.org\/news\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/IMG_2800.jpg\" alt=\"\" width=\"612\" height=\"612\" \/><p id=\"caption-attachment-2821\" class=\"wp-caption-text\">Augusto Guambe, Presidente da Associacao dos Psicologos de Mocambique<\/p><\/div>\n<p class=\"p2\">\u201cDentro desses grupos, aten\u00e7\u00e3o especial deve ser dada \u00e0s fam\u00edlias monoparentais, menores, idosos, pessoas com doen\u00e7as cr\u00f3nicas, pessoas com defici\u00eancia intelectual e especialmente pessoas com transtornos mentais, porque s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis e porque precisam do apoio e ajuda de seus cuidadores para poderem sobreviver\u201d, fala Augusto Guambe, coordenador de sa\u00fade mental da<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><span class=\"s2\"> Associa\u00e7\u00e3o de Psicologia de Mo\u00e7ambique.<\/span><span class=\"s3\">organiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">A ONG destaca a necessidade de cuidados especializados e medicamentosos para proteger as pessoas com problemas de sa\u00fade mental e denuncia a falta de medicamentos nas unidades psiconeurol\u00f3gicas. Seu compromisso com a melhoria da sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana \u00e9 realizado por meio de interven\u00e7\u00f5es de apoio em grupo, assist\u00eancia psicossocial individual e apoio \u00e0 aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria com atendimento psicol\u00f3gico para pacientes com somatiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p3\">Sempre em busca de reparar as feridas que arrastam deslocados como Jo\u00e3o, de Quissanga. \u201cSinto ansiedade desde o primeiro dia da guerra. As sirenes duma ambul\u00e2ncia que ocorrem de vez em quando me causam uma esp\u00e9cie de p\u00e2nico interno, pois n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil esquecer o que se viu ou ouviu.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s4\">A Associa\u00e7\u00e3o de Psicologia de Mo\u00e7ambique existe desde 2004 e ressente-se de dificuldades financeiras para prestar assist\u00eancia \u00e0s v\u00edtimas do terrorismo.<\/span><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2820 size-medium\" src=\"https:\/\/cjimoz.org\/news\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/IMG_2587-e1684737808828-400x600.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 class=\"p1\"><strong>Os dramas de Corane<\/strong><\/h2>\n<p class=\"p1\">Em Corane, onde pode se dizer que \u00e9 um bom exemplo de parcelamento, os deslocados queixam-se de insufici\u00eancia de \u00e1gua.Tem apenas quatro fontenarias. A via de acesso para entrada \u00e9 tamb\u00e9m prec\u00e1ria e escorregadia no per\u00edodo de chuvoso. A energia el\u00e9trica ainda n\u00e3o abrangeu a todas fam\u00edlias, ali\u00e1s at\u00e9 porque, h\u00e1 poucas casas sendo que muitas das resid\u00eancias s\u00e3o tendas. N\u00e3o tem mercado, ainda que haja servi\u00e7os de M-pesa e E-mola, os poucos produtos s\u00e3o vendidos debaixo de cajueiros.\u00a0 Al\u00e9m de falta de oportunidades de emprego, os deslocados ainda precisam de apoio psicossocial. O centro de deslocados de Corane, distrito de Meconta em Nampula, esconde muitas hist\u00f3rias de pesadelo que as v\u00edtimas do terrorismo passaram a quando dos ataques.<\/p>\n<p class=\"p1\">A primeira dama de Mo\u00e7ambique, Isaura Nyusi, visitou o Centro de Reassentamento de Corrane, em 2021 e procedeu na ocasi\u00e3o, a oferta de produtos de primeira necessidade para as fam\u00edlias.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8220;A ajuda ao pr\u00f3ximo \u00e9 um gesto de humanidade e todos somos chamados a dar a nossa m\u00e3o para ajudar aos nossos irm\u00e3o&#8221;.- Explicou Isaura Nyusi aos presentes no local.<\/p>\n<p class=\"p1\">As mais de seis mil pessoas, divididos em dois bairros, al\u00e9m partilham dores, a alegria pelo facto de n\u00e3o terem sido raptadas ou mesmo decapitadas tal como as outras pessoas, incluindo seus familiares. E quando as not\u00edcias, de conquista as suas terras de origem soam, entre si, paira permanecer definitivamente em Corane, apesar das dificuldades e vontade de regressar \u00e0s origens para recome\u00e7ar a vida. No meio daquele universo, n\u00e3o se vislumbra assist\u00eancia psicol\u00f3gica com acompanhamento\u2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por CJI &nbsp; \u201cVi a minha sobrinha num centro de acolhimento, trazia uma capaluna como a que estend\u00edamos na porta, s\u00f3 que agora a nossa casa j\u00e1 n\u00e3o existe. Desde que cheguei a este centro de deslocados tenho mudan\u00e7as repentinas de humor. 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