Por Estacio Valoi e Luis Nhachote (CJI — Parte 2) O que está a acontecer em Vilankulo não se limita à extração de areia. Trata-se de uma
Por Estacio Valoi e Luis Nhachote (CJI — Parte 2)
O que está a acontecer em Vilankulo não se limita à extração de areia. Trata-se de uma intervenção num sistema ecológico complexo, onde dunas, mangais, recifes de coral e correntes marinhas funcionam como componentes interdependentes de um mesmo equilíbrio ambiental.
Veja video: Por Estacio Valoi/InhambaneJangamo
A mineração de areias pesadas avança numa das zonas mais sensíveis da costa moçambicana. Especialistas consultados e documentos ambientais analisados apontam que alterações em qualquer destes elementos podem desencadear efeitos em cadeia que ultrapassam largamente a área de exploração.
As dunas costeiras, actualmente alvo de extração, constituem uma barreira natural contra a erosão marinha. Além de absorverem a força do vento e das marés, contribuem para a estabilidade da linha costeira e para a proteção dos ecossistemas e comunidades localizadas no interior. Estudos ambientais indicam que a sua remoção pode acelerar processos erosivos, aumentar a salinização dos solos e comprometer a vegetação que fixa a areia.
A alteração do fluxo natural dos sedimentos costeiros representa outra preocupação identificada nos estudos consultados. A areia que circula entre praias, zonas húmidas e o oceano pode ser removida ou desviada, afectando os mangais, ecossistemas que servem de área de reprodução para diversas espécies marinhas. Alterações nestes habitats podem ter consequências sobre a pesca artesanal e sobre as cadeias alimentares que dependem destes ambientes.
Os impactos potenciais estendem-se igualmente ao ambiente marinho. Partículas finas resultantes da actividade mineira podem ser transportadas pelo vento ou pelas correntes marítimas. Quando atingem os recifes de coral, podem reduzir a transparência da água e afectar processos biológicos essenciais. A degradação destes ecossistemas pode traduzir-se em impactos económicos para sectores como a pesca e o turismo.
Os riscos associados a este tipo de exploração não são inéditos em Moçambique. Em diferentes pontos do país, projectos mineiros semelhantes foram associados a processos de erosão costeira, alterações de lagoas e conflitos relacionados com o uso da terra. Estes antecedentes constituem hoje um importante elemento de análise para compreender o que poderá ocorrer em Vilankulo.

A holding
Questões sobre o processo de licenciamento
Para além das preocupações ambientais, a exploração de areias pesadas em Vilankulo levanta questões sobre o processo de licenciamento e fiscalização do projecto.
Documentos consultados pela reportagem e posições assumidas por organizações ligadas à conservação ambiental apontam para dúvidas relacionadas com a tramitação do processo, incluindo aspectos ligados ao licenciamento ambiental, aos estudos de impacto e às consultas comunitárias.
Ao mesmo tempo, novos projectos de desenvolvimento industrial continuam a ser discutidos para a região, incluindo propostas ligadas ao sector petroquímico. https://moz24h.co.mz/cidade-petroquimica-no-coracao-da-paisagem-maritima-de-inhambane/. Neste contexto, permanece uma questão central: quais foram os pareceres técnicos e as decisões administrativas que sustentaram o avanço destes projectos numa das áreas ambientalmente mais sensíveis da costa moçambicana?
A expansão de projectos na Paisagem Marítima de Inhambane
Nas últimas décadas, a Paisagem Marítima de Inhambane recebeu investimentos significativos ligados ao turismo, conservação da biodiversidade e desenvolvimento comunitário. Operadores turísticos, investidores e organizações ambientais defendem que a integridade dos ecossistemas constitui um dos principais activos económicos da região.
Contudo, a coexistência entre actividades extractivas, projectos industriais e iniciativas de conservação tem vindo a gerar debate entre diferentes actores locais e nacionais.
Em Outubro de 2023, a empresa Haiyu Mozambique Mining Co. Lda iniciou actividades associadas a um projecto mineiro próximo do Parque Nacional do Bazaruto. Paralelamente, surgiram propostas relacionadas com a realização de testes sísmicos em áreas marinhas próximas de zonas de conservação reconhecidas a nível nacional e internacional.
Organizações ambientais e especialistas consultados alertam que estas iniciativas poderão ter impactos sobre espécies vulneráveis e ecossistemas considerados estratégicos para a biodiversidade da região, incluindo habitats utilizados por dugongos, tartarugas marinhas e diversas espécies de peixes.

O que revelam documentos obtidos pela reportagem
Uma nota informativa datada de 31 de Julho de 2025, à qual a reportagem teve acesso, mostra que o tema continuava a ser acompanhado junto do Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIREME) e das autoridades provinciais de Inhambane.
Segundo o documento, foram realizadas reuniões com administradores distritais, direcções sectoriais e o governador provincial. Entre os assuntos discutidos constavam imagens aéreas da exploração em curso, preocupações relativas a danos ambientais, lacunas regulamentares e potenciais impactos sobre a economia turística regional.
A mesma nota refere que o governador de Inhambane terá solicitado um sobrevoo da área para recolha de informação adicional destinada à elaboração de um relatório a ser submetido às instâncias superiores.
O documento menciona ainda discussões sobre possíveis projectos de desenvolvimento costeiro, incluindo a hipótese de construção de um porto de águas profundas e a ligação deste projecto a outras infraestruturas previstas para a região.
Veja video: Destruição das dunas em curso/ Crateras
Impactos identificados nos estudos analisados
A documentação técnica analisada pela reportagem aponta para um conjunto de riscos associados ao método de dragagem por sucção previsto para a exploração.
Entre os impactos terrestres identificados encontram-se a emissão de poeiras, a alteração da cobertura vegetal, a contaminação potencial de águas superficiais e subterrâneas e a perturbação de sistemas ecológicos interligados.
No ambiente marinho, os estudos alertam para riscos de assoreamento, deposição de sedimentos e possíveis impactos sobre recifes de coral e outras áreas ecologicamente sensíveis.
Os documentos analisados também referem preocupações relacionadas com a gestão de resíduos, o transporte de partículas minerais e os potenciais efeitos sobre comunidades localizadas nas proximidades da área de exploração.
Veja o video: Por Estacio Valoi/ Inhambane
Dois modelos de desenvolvimento em disputa
O debate em torno da mineração de areias pesadas em Vilankulo ultrapassa a dimensão ambiental.
Por um lado, os promotores dos projectos argumentam que a actividade pode gerar emprego, receitas e oportunidades económicas numa região marcada por limitações estruturais. Por outro, operadores turísticos, organizações ambientais e membros de comunidades locais questionam os impactos de longo prazo sobre actividades que dependem directamente da conservação dos ecossistemas costeiros.
A questão central permanece em aberto: como estão a ser avaliados os impactos cumulativos da mineração, dos projectos industriais previstos e das alterações ambientais já observadas na costa de Inhambane?
A resposta poderá determinar não apenas o futuro de Vilankulo, mas também o modelo de desenvolvimento que Moçambique pretende seguir para uma das suas regiões costeiras mais valiosas. https://cjimoz.org.mz/news/manual-para-retalhar-uma-costa/


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